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Os jovens da fornalha além da Bíblia: o que se sabe
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- Michel Fernandes
- @michelpf
A história da fornalha em si já contei neste post sobre Daniel 3, e aqui não vou repeti-la. Depois dele veio Daniel na cova dos leões. Agora a pergunta é outra: o que sabemos de Hananias, Misael e Azarias fora da Bíblia?
A resposta curta: sobre o mundo deles sabemos bastante, mas as fontes antigas fora da Bíblia que falam deles mesmos são quase todas tradições posteriores. Por isso separo três coisas. O que as fontes mostram é o que está em documentos e objetos antigos. O que a tradição diz é o que judeus e cristãos contaram e ensinaram depois. O que é só hipótese é o que estudiosos propõem sem prova decisiva. Escrevo de dentro da fé, mas com as fontes à vista.
O mundo deles nas fontes babilônicas
O que as fontes mostram
A Crônica babilônica ABC 5, também chamada Crônica de Jerusalém, conta os primeiros anos de Nabucodonosor II. Ela narra a vitória sobre o Egito em Carquemis, em 605 a.C., e conta que, no sétimo ano (598/597 a.C.), o rei sitiou "a cidade de Judá", tomou-a e capturou o rei.
Tabletes de argila achados em Babilônia registram rações de óleo para "Yaukin, rei da terra de Yahudu", ou seja, Joaquim, e seus filhos. São da época de Nabucodonosor, foram publicados por Ernst Weidner em 1939, e um deles está hoje no Museu do Antigo Oriente Próximo, em Berlim.
Esses documentos confirmam que judeus exilados viviam na Babilônia e que a corte registrava o que eles recebiam. Não citam Hananias, Misael nem Azarias. A parte conservada da ABC 5 também não menciona a deportação de jovens que Daniel 1:1 coloca no terceiro ano de Joaquim. Não encontrei nenhuma inscrição que cite os três.
O que é só hipótese
O Prisma de Nabucodonosor II (EŞ 7834), em Istambul, lista dezenas de oficiais da Babilônia. Segundo a edição de Rocío Da Riva, o texto é de 598 a.C. no mais tardar, embora outros proponham datas diferentes. Aparece ali Nabuzaradã, que também é citado em 2 Reis 25 e Jeremias 39. Há quem diga que outros nomes da lista seriam os dos três jovens. Não achei nenhuma publicação acadêmica que sustente isso, e a semelhança de nomes não basta.
Queimar gente na Babilônia
O que as fontes mostram
Queimar condenados existiu na Mesopotâmia. O Código de Hammurabi prevê o fogo em pelo menos três casos: a lei 25, para quem rouba durante um incêndio, a 110, para uma sacerdotisa que abre ou entra numa taberna, e a 157, para certo caso de incesto. Em Jeremias 29:21-22, o profeta fala de dois falsos profetas, Acabe e Zedequias, que o rei da Babilônia "assaria no fogo".
Já a fornalha é rara. A assiriologista Tawny Holm, num estudo de 2008, achou só dois casos de jogar alguém num forno na Mesopotâmia. Um é uma carta babilônica antiga em que o rei Rim-Sin manda lançar num forno de tijolos um assassino que havia jogado a vítima num forno. A pena imita o crime, então não prova um costume geral. O outro é um decreto assírio sobre o harém, de cerca de 1132-1115 a.C.
O que é só hipótese
Holm conclui que os paralelos mais próximos estão em contos egípcios de corte, em que cortesãos que desagradam ao rei são lançados numa fornalha. Ela sugere que a história nasceu onde se conheciam tradições egípcias e mesopotâmicas, e acha que as histórias de Daniel 1 a 6 foram escritas no fim do período persa ou no helenístico. Outros, como Paul-Alain Beaulieu, procuram o pano de fundo na própria Babilônia.
Josefo
O que as fontes mostram
O historiador judeu Josefo (fim do século I d.C.) recontou a história em Antiguidades 10.10. Ele usa os dois pares de nomes, Ananias, Misael e Azarias, e Sadraque, Mesaque e Abede-Nego. Acrescenta uma explicação própria: o fogo teria percebido que eles eram inocentes.
Josefo diz no prefácio que segue os livros sagrados dos hebreus. Ou seja, ele mostra como a história era lida no século I, e não é uma fonte independente do que aconteceu na Babilônia.
Os manuscritos de Qumran
O que as fontes mostram
Em Qumran foram achados oito manuscritos de Daniel, todos em fragmentos. Pela escrita, foram datados entre o fim do século II a.C. e o século I d.C. Uma datação por carbono-14 publicada em 2025 sugere que um deles, o 4QDan c, pode ser ainda mais antigo.
Também em Qumran apareceu a Oração de Nabonido (4Q242), sobre um rei babilônico doente e curado com a ajuda de um judeu. Ela lembra Daniel 4, não cita os três, mas mostra que histórias judaicas sobre reis da Babilônia circulavam fora do livro de Daniel.
A tradição judaica
O Talmude da Babilônia, escrito muitos séculos depois, tem várias histórias sobre os três:
- Pesachim 53b: os três teriam pensado nas rãs do Egito, que entraram até nos fornos (Êx 8:3). Se as rãs se entregaram ao fogo, eles também deviam se entregar, pela honra do nome de Deus.
- Sanhedrin 92b: no mesmo dia em que os três foram lançados na fornalha, o profeta Ezequiel teria ressuscitado mortos no vale de Dura.
- Sanhedrin 93a: os rabinos discordam sobre o que aconteceu com os três depois. Para uns, morreram pelo "mau-olhado", a inveja de quem viu o milagre. Para outros, morreram afogados no cuspe dos povos, que zombavam dos judeus. Para os sábios, subiram para a terra de Israel, casaram e tiveram filhos. O mesmo trecho dá várias respostas para uma pergunta curiosa: por que Daniel não estava na fornalha junto com os amigos.
A tradição cristã
A carta 1 Clemente, escrita pela igreja de Roma no fim do século I, cita Daniel e "Ananias, Azarias e Misael" como justos perseguidos por gente má, e não por quem adorava o Altíssimo (cap. 45).
Hipólito de Roma, por volta do ano 200, escreveu um dos primeiros comentários cristãos ao livro de Daniel. Num trecho que sobreviveu, ele diz que os três "se tornaram exemplo para todos os fiéis", porque não temeram o rei nem o fogo. Ele lê o capítulo com os versos gregos, que incluem o cântico dos três.
A arte das catacumbas
Na catacumba de Priscila, em Roma, os três jovens aparecem de pé, de braços erguidos em oração, com gorros e roupas orientais, no meio das chamas. Acima deles, uma pomba traz um ramo de oliveira. O comentário do King's College London data a pintura de cerca de 250 a 300 d.C., mas a data é debatida. Num lugar de sepultura, a leitura mais comum é que a morte não tem a última palavra. Isso é interpretação de quem estuda a imagem, e não algo escrito ali.
Uma recomendação
Segredos Milenares da Bíblia é o título brasileiro de Ancient Secrets of the Bible, série lançada em 1994 e distribuída hoje pela C3 Entertainment. Já falei dela neste post. Um dos episódios, "The Fiery Furnace: Could Anyone Survive It?", trata de Daniel 3. Encontrei a série no Prime Video, em inglês, e a disponibilidade varia por país. Não achei uma versão dublada em português de fonte oficial.
O episódio defende que o relato é histórico e diz, por exemplo, que um prisma de argila em Istambul traz os nomes dos três. Parece ser o Prisma que citei acima, e, como disse, não encontrei confirmação acadêmica disso. Recomendo como ponto de vista para comparar, e não como fonte.
Para pensar
Os três não sabiam se Deus os livraria. Decidiram antes da pressão chegar. Que decisão você já tomou antes de a sua pressão chegar?
Fontes
Textos antigos:
- Crônica babilônica ABC 5 (Crônica de Jerusalém): Livius.org.
- Tablete de rações de Joaquim: Staatliche Museen zu Berlin, Vorderasiatisches Museum.
- Prisma de Nabucodonosor II (EŞ 7834): Rocío Da Riva, "Nebuchadnezzar II's Prism (EŞ 7834): A New Edition", Zeitschrift für Assyriologie 103 (2013), pp. 196 a 229, De Gruyter.
- Código de Hammurabi, leis 25, 110 e 157: Avalon Project (Yale).
- Josefo, Antiguidades dos Judeus, livro 10, cap. 10, tradução de William Whiston: Perseus e Project Gutenberg.
- Oração de Nabonido (4Q242): Center for Online Judaic Studies.
- Talmude da Babilônia, no Sefaria: Pesachim 53b, Sanhedrin 92b e Sanhedrin 93a.
- 1 Clemente 45: New Advent. Data e contexto: Catholic Encyclopedia, Pope St. Clement I.
- Hipólito de Roma, escólios sobre Daniel: CCEL.
Estudos:
- Tawny L. Holm, "The Fiery Furnace in the Book of Daniel and the Ancient Near East", Journal of the American Oriental Society 128 (2008), pp. 85 a 104: Penn State.
- Paul-Alain Beaulieu, "The Babylonian Background of the Motif of the Fiery Furnace in Daniel 3", Journal of Biblical Literature 128 (2009), pp. 273 a 290: ficha.
- Eugene Ulrich, "Daniel Manuscripts from Qumran. Part 1", Bulletin of the American Schools of Oriental Research 268 (1987): resumo.
- Sobre a nova datação do 4QDan c: Bible and Interpretation.
- Oração de Azarias e Cântico dos Três Jovens: Encyclopedia of the Bible.
- Visual Commentary on Scripture (King's College London), The Fiery Furnace, com o afresco da catacumba de Priscila. Site oficial da catacumba.
Documentário:
- Segredos Milenares da Bíblia (Ancient Secrets of the Bible), série I, 1994: C3 Entertainment. Para assistir, em inglês: Prime Video.