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A fornalha ardente: a história de Daniel 3

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O episódio da fornalha ardente está no capítulo 3 do livro de Daniel. Nele, três jovens judeus que serviam na corte babilônica se recusam a adorar uma estátua de ouro erguida pelo rei Nabucodonosor e são condenados à morte no fogo. Neste post, resumo o contexto histórico, a narrativa do capítulo e as principais leituras que a tradição faz dele.

O contexto

Por volta de 605 a.C., Nabucodonosor II conquista Judá e leva para a Babilônia jovens da elite judaica para servirem na corte (Dn 1). Entre eles estão Daniel, Hananias, Misael e Azarias, que recebem nomes babilônicos: Beltessazar, Sadraque, Mesaque e Abede-Nego.

No capítulo 2, Daniel interpreta o sonho do rei sobre uma estátua feita de vários metais, na qual a Babilônia é representada pela cabeça de ouro de uma sequência de reinos que seriam substituídos. Muitos comentaristas leem o capítulo 3 como uma resposta de Nabucodonosor a esse sonho, já que a estátua que ele manda construir é inteiramente de ouro.

Os três amigos, nessa altura, já ocupavam cargos na administração da província da Babilônia (Dn 2:49).

A estátua e a condenação

O rei manda erguer na planície de Dura uma imagem de ouro de 60 por 6 côvados, cerca de 27 metros de altura por 2,7 de largura. Todos os oficiais do império são convocados para a inauguração, com uma ordem: ao som dos instrumentos, todos devem se prostrar diante da imagem. Quem não obedecer será lançado numa fornalha.

Sadraque, Mesaque e Abede-Nego não se prostram, e alguns caldeus os denunciam ao rei. Nabucodonosor manda chamá-los, oferece uma segunda oportunidade e pergunta: "e quem é o deus que vos poderá livrar das minhas mãos?" (Dn 3:15).

A resposta dos três está nos versículos 17 e 18:

Se o nosso Deus, a quem servimos, quer livrar-nos, ele nos livrará da fornalha de fogo ardente e das tuas mãos, ó rei. Se não, fica sabendo, ó rei, que não serviremos a teus deuses, nem adoraremos a imagem de ouro que levantaste. (Daniel 3:17-18)

A fornalha

O rei ordena que a fornalha seja aquecida sete vezes mais do que o normal. Os três são amarrados e lançados nela ainda vestidos, e o calor mata os soldados que os conduzem até a entrada.

Em seguida, Nabucodonosor observa o interior da fornalha e vê quatro homens soltos, andando no meio do fogo, sem sofrer dano. Segundo ele, o aspecto do quarto é "semelhante a um filho dos deuses" (Dn 3:25).

O rei chama os três para fora. O texto registra que o fogo não teve poder sobre seus corpos, que os cabelos não foram chamuscados, que os mantos não se alteraram e que nem cheiro de fogo havia neles (Dn 3:27). Nabucodonosor então bendiz o "Deus de Sadraque, Mesaque e Abede-Nego", decreta que ninguém fale contra ele e promove os três na província da Babilônia (Dn 3:28-30).

O quarto homem

O texto não identifica diretamente a quarta figura. O próprio Nabucodonosor afirma, logo depois, que Deus "enviou o seu anjo" (Dn 3:28).

Na tradição cristã, muitos intérpretes veem ali uma aparição de Cristo antes da encarnação, apoiados na tradução do versículo 25 na Almeida Revista e Corrigida, "semelhante ao Filho de Deus". Na tradição judaica, a figura costuma ser entendida como um anjo, e o episódio é lembrado como exemplo de kiddush Hashem, a santificação do nome de Deus diante das nações.

Relação com outros textos

O capítulo 6 de Daniel, com Daniel na cova dos leões, segue a mesma estrutura: decreto do rei, recusa, condenação, livramento e reconhecimento por parte do rei.

A Septuaginta acrescenta entre os versículos 23 e 24 a Oração de Azarias e o Cântico dos Três Jovens, textos presentes nas Bíblias católicas. Os três também são citados como exemplos de fé em 1 Macabeus 2:59 e em Hebreus 11:34, que menciona os que "extinguiram a violência do fogo".


Para saber mais

  • Daniel 3:1-30, junto com os capítulos 1, 2, 4 e 6.
  • 1 Macabeus 2:59 e Hebreus 11:34.
  • Oração de Azarias e Cântico dos Três Jovens (Daniel 3:24-90 nas Bíblias católicas).

As citações bíblicas seguem a Almeida Revista e Atualizada, exceto quando indicado.