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Daniel na cova dos leões: o texto, a história e como foi lido

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No post anterior, falei da fornalha ardente, em Daniel 3. Hoje o assunto é Daniel na cova dos leões, em Daniel 6, o outro grande livramento do livro.

Neste post, resumo a narrativa, discuto Dario, o medo, comparo o capítulo 6 com o 3 e mostro como judeus e cristãos leram a história, inclusive na arte das catacumbas. Escrevo de dentro da fé, mas separo três coisas. O que as fontes mostram é o que está em documentos e objetos antigos que podemos consultar. O que a tradição diz é o que leitores judeus e cristãos, mais tarde, contaram e ensinaram. O que é só hipótese é o que estudiosos propõem sem prova decisiva. As citações bíblicas são paráfrases minhas, e as fontes estão no fim.

A história em poucas linhas

Daniel 6 se passa no reinado de Dario, o medo. O rei nomeia 120 sátrapas e três presidentes para vigiá-los, e Daniel é um deles. Ele se destaca tanto que o rei pensa em colocá-lo sobre todo o reino (Dn 6:1-3).

Os outros oficiais, com inveja, não encontram falha nele e armam uma cilada com a religião dele. Convencem o rei a decretar que, por 30 dias, ninguém peça nada a deus ou homem algum, só ao rei. Quem desobedecer vai para a cova dos leões (6:7-9).

Daniel sabe do decreto e continua a orar três vezes por dia, em casa, com as janelas abertas na direção de Jerusalém (6:10). Os acusadores o denunciam. O rei fica aflito e tenta salvá-lo até o fim do dia, mas a lei dos medos e persas não pode ser mudada (6:14-15). Daniel é lançado aos leões, e a pedra da cova é selada com o anel do rei e os anéis dos nobres (6:17).

O rei passa a noite sem comer. Ao amanhecer, chama Daniel, que responde que Deus enviou um anjo e fechou a boca dos leões (6:19-22). Os acusadores, com suas famílias, são lançados na cova (6:24). O rei decreta que todos temam o Deus de Daniel (6:25-27).

Quem foi Dario, o medo?

O que as fontes mostram

O livro de Daniel diz que Dario, o medo, tinha cerca de 62 anos e recebeu o reino quando Belsazar morreu (Dn 5:30-31). Em outro ponto, o livro o chama de filho de Assuero, da linhagem dos medos (9:1).

A Crônica de Nabonido (ABC 7), um texto babilônico da época, conta a queda da Babilônia de outro modo. Em 16 de tashritu (outubro de 539 a.C.), Ugbaru, governador de Gútio, e o exército de Ciro entraram na cidade sem batalha. Ciro entrou depois, em 3 de arahsamna. Gubaru, apresentado como oficial de Ciro, nomeou os governadores da Babilônia. Ugbaru morreu na noite de 11 de arahsamna.

Nesses documentos, não aparece nenhum "Dario, o medo". D. J. Wiseman, assiriólogo, escreveu em 1965 que as referências a Dario, o medo, são "o problema histórico mais sério do livro", citando outro autor.

O que é só hipótese

Há três propostas principais, e nenhuma é consenso.

  1. Dario seria Gubaru (ou Ugbaru). O ponto fraco, segundo o próprio Wiseman, é que nenhum texto cuneiforme liga Gubaru ao nome Dario nem lhe dá o título de rei. Ele aparece sempre como governador.
  2. Dario seria outro nome de Ciro. Wiseman propôs isso em 1957, lendo Daniel 6:28 como "no reinado de Dario, isto é, de Ciro, o persa". Ele defende que o texto permite essa leitura, mas ela segue sendo hipótese.
  3. Dario, o medo, seria uma figura construída pelo autor. Para H. H. Rowley, citado por Wiseman, haveria uma confusão com Dario I, que retomou a Babilônia depois de revoltas, anos após a queda original da cidade, em 539 a.C. É a posição de muitos estudiosos críticos.

A discussão se liga à data do livro. Estudiosos críticos costumam situar as histórias de Daniel 1 a 6 entre o fim do período persa e o início do helenístico, e as visões dos capítulos 7 a 12 por volta de 165 a.C. Quem defende a autoria no século VI a.C. procura soluções como as de Wiseman. Há ainda uma pista sobre cópias antigas: oito manuscritos de Daniel foram achados em Qumran, e o mais antigo é de cerca de 125 a.C.

Prefiro deixar a pergunta aberta, porque as fontes não dão certeza.

A lei que não muda

Daniel 6 repete que a lei dos medos e persas não pode ser revogada (6:8, 12, 15). A ideia aparece também em Ester, onde o decreto escrito em nome do rei não pode ser desfeito (Et 1:19 e 8:8). A ideia era familiar nos textos judaicos, mas isso não prova como os persas agiam na prática.

E o fosso de leões?

Não encontrei fonte antiga que descreva um fosso de leões como forma de execução na Babilônia ou na Pérsia, então deixo isso de fora. O que existe é uma hipótese de leitura: o assiriólogo Karel van der Toorn argumenta, num artigo de 1998, que a cova de Daniel 6 tem raízes na literatura da corte babilônica, em que "leões" são rivais hostis. O autor bíblico teria transformado a metáfora numa cena literal.

Daniel 6 e Daniel 3

Muitos estudiosos veem os capítulos 2 a 7 organizados em espelho, com o 3 (a fornalha) e o 6 (os leões) em posições correspondentes. A estrutura é parecida: um decreto do rei, uma denúncia por inveja, a recusa de adorar outro, a condenação, o livramento e a confissão do rei. Em Daniel 3, Daniel não aparece, o rei é Nabucodonosor e a desobediência é pública. Em Daniel 6, os amigos não aparecem, o rei é Dario e a desobediência é uma oração em casa, embora as janelas abertas a deixassem à vista.

Do ponto de vista da fé, os dois textos têm algo em comum. Os três da fornalha disseram que Deus poderia livrá-los e que, "e se não", continuariam fiéis. Daniel continuou a orar sem saber se sairia vivo. Nos dois casos, a fidelidade não dependia do resultado.

O que a tradição diz

Tradição judaica

O Talmude da Babilônia, no tratado Berakhot 31a, usa Daniel 6:11 para ensinar duas coisas: orar numa casa com janelas e manter horários fixos de oração. Para os rabinos, Daniel orar três vezes por dia indica que existem orações fixas. O Talmude foi escrito muito tempo depois dos fatos que o livro narra, então é leitura posterior.

O historiador judeu Josefo (Antiguidades 10.11.4 a 10.11.7) conta o episódio com acréscimos próprios. Nele, os inimigos de Daniel dizem que os leões estavam saciados. O rei manda jogar muita carne aos leões e só depois lança os acusadores, para tirar a dúvida. Os leões os despedaçam. Esse detalhe não está em Daniel 6. Josefo escreveu no fim do século I d.C. e diz, no prefácio, que segue os livros sagrados dos hebreus.

Em 1 Macabeus 2:60, a salvação de Daniel da boca dos leões é lembrada junto com a dos três da fornalha.

As versões gregas de Daniel trazem ainda um segundo episódio de leões, em "Bel e o Dragão" (Dn 14:31-42 nas Bíblias católicas). Daniel fica seis dias na cova, com sete leões, e o profeta Habacuque é levado de Judá para lhe dar comida. Esse texto não existe na versão hebraica e aramaica.

Tradição cristã

Hebreus 11:33 cita entre os heróis da fé os que fecharam a boca de leões. Em 1 Clemente 45, uma carta da igreja de Roma, geralmente datada do fim do século I, Daniel e os três da fornalha aparecem como justos perseguidos por gente má, e não por quem teme a Deus.

Hipólito de Roma escreveu sobre Daniel, entre 202 e 211 d.C., o mais antigo comentário cristão completo que se preservou. Segundo estudiosos, ele usa os episódios da fornalha e dos leões como modelos para cristãos perseguidos.

Algumas leituras cristãs ligam a pedra selada da cova (Dn 6:17) à pedra do túmulo de Jesus, também selada (Mt 27:66). É uma leitura de fé, que o texto de Daniel não afirma.

A arte das catacumbas

Daniel entre dois leões, de braços erguidos em oração, é um tema frequente na arte cristã antiga. Segundo o Visual Commentary on Scripture, uma catacumba da via Anapo, em Roma, do século III, tem um cubículo com Daniel orando entre leões que lambem seus pés. Ao lado, aparecem os três jovens da fornalha e uma cena de Bel e o Dragão. A catacumba de Priscila também tem os três jovens em oração, com uma pomba e um ramo de oliveira acima deles. A data desse afresco é debatida, entre cerca de 230 e o início do século IV.

Segundo o VCS, num lugar de sepultamento a imagem diz que a morte não tem a última palavra, mas isso é interpretação, já que as pinturas não trazem legenda.

Uma recomendação

Há uma série de documentários com o outro lado desta discussão, o de quem defende a historicidade dos relatos de Daniel. Segredos Milenares da Bíblia é o título brasileiro de Ancient Secrets of the Bible, série de 13 episódios lançada em 1994, de uns 23 minutos cada um. Falei dela no post sobre a arca de Noé em dois documentários.

Não existe episódio sobre Daniel 6 na lista, mas o episódio "A fornalha ardente: poderia alguém sobreviver a ela?" trata de Daniel 3 e discute se o livro é histórico. Existe uma versão dublada em português no YouTube, aqui, e a série completa está nesta lista. Os dois links são do canal Marcio Scarpellini, que não sei se é oficial. O episódio defende que o relato é histórico. Muitos estudiosos discordam, como mostrei acima. Recomendo como ponto de vista para comparar, e não como fonte.

Para pensar

Daniel orava com as janelas abertas antes do decreto e continuou depois dele. Qual é a sua "janela aberta", a prática que as pessoas ao redor veem e que você manteria mesmo se ficasse mais caro?

Fontes

Textos bíblicos e antigos:

Estudos e obras de referência:

Documentário:

  • Segredos Milenares da Bíblia (Ancient Secrets of the Bible), série I, 1994: C3 Entertainment.
  • Episódio "A Fornalha Ardente" (dublagem em português): YouTube. Lista da série: YouTube.