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Guerra do Paraguai, episódio 1: antecedentes e historiografia

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Mapa das disputas territoriais na região platina em 1864, com Paraguai, Brasil, Argentina, Uruguai e Bolívia

Disputas territoriais na região platina em 1864. As áreas hachuradas eram reivindicadas por mais de um país. Mapa: Hoodinski, com base em Demétrio Magnoli (2009) e Hélio Viana (1994), Wikimedia Commons, CC BY-SA 3.0.

Neste post, começo uma série de cinco episódios sobre a Guerra do Paraguai, com um episódio novo por semana. Este primeiro trata dos antecedentes e da historiografia. O segundo cobre os anos de 1864 e 1865. O terceiro vai de 1866 a 1868. O quarto acompanha a fase final, de 1868 até a morte de Francisco Solano López em Cerro Corá, em 1º de março de 1870. O quinto trata das consequências. Em abril de 2025, publiquei aqui um texto curto sobre por que o Brasil não anexou o Paraguai. A série retoma o assunto desde o começo.

O historiador britânico Leslie Bethell classifica o conflito como a guerra entre Estados mais longa e mais sangrenta da história da América Latina. Segundo ele, entre o fim das Guerras Napoleônicas, em 1815, e o início da Primeira Guerra Mundial, em 1914, só a Guerra da Crimeia matou mais gente. Em 1996, Bethell estimava entre 150 mil e 200 mil mortos, a maioria paraguaios e brasileiros, em combate ou por doença e fome. Estimativas posteriores são maiores, como mostra a seção final. As causas da guerra continuam em disputa. Por isso este episódio trata do que aconteceu antes do primeiro tiro e de como cada geração de historiadores explicou esse começo.

A bacia do Prata antes de 1864

Em meados do século XIX, quase não havia estradas nem ferrovias no interior da América do Sul. Os rios Paraná e Paraguai eram a principal via de transporte da região. Para o Brasil, eram a única ligação prática com a província de Mato Grosso. Para o Paraguai, que não tem saída para o mar, eram o caminho até o Atlântico, passando por território argentino. Bethell resume a dependência mútua assim: o Brasil precisava que o Paraguai deixasse Mato Grosso usar o rio Paraguai, e o Paraguai precisava que a Argentina o deixasse usar o Paraná.

Mapa da bacia do rio da Prata com os rios Paraná, Paraguai e Uruguai e as principais cidades

A bacia do rio da Prata. O rio Paraguai era o caminho mais curto entre o litoral brasileiro e Mato Grosso. Mapa: Kmusser, com dados de elevação SRTM, Wikimedia Commons, CC BY-SA 3.0.

As fronteiras herdadas da colônia também eram vagas. O mapa no topo deste post mostra as áreas em disputa em 1864. Brasil e Paraguai disputavam a faixa entre os rios Apa e Branco, onde havia ervais nativos. Argentina e Paraguai disputavam Misiones, a leste do Paraná, e o Chaco, a oeste do rio Paraguai. O Chaco interessava pelas árvores de quebracho, das quais se extraía tanino.

A rivalidade principal da região, no entanto, era entre Brasil e Argentina. Os dois tinham lutado pela Banda Oriental entre 1825 e 1828. A guerra terminou com a independência do Uruguai, criado em 1828, com mediação britânica, como Estado-tampão entre os dois vizinhos. Em 1851 e 1852, Brasil, Uruguai e a província argentina de Entre Ríos se aliaram contra o governador de Buenos Aires, Juan Manuel de Rosas, derrotado na batalha de Caseros em fevereiro de 1852. Bethell chama essa coalizão de "uma Tríplice Aliança anterior".

O Paraguai ficou fora dessas guerras. O Brasil reconheceu sua independência em 1844. A Argentina só o fez em 1852. Em 1858, Brasil e Paraguai assinaram uma convenção sobre a navegação no rio Paraguai, mas a fronteira entre eles continuou sem acordo.

O Paraguai dos López

O Paraguai se separou da Espanha e de Buenos Aires entre 1811 e 1813. José Gaspar Rodríguez de Francia governou o país até a morte, em 1840. Carlos Antonio López assumiu em 1844 e ficou no poder até morrer, em 1862. Francia manteve o país quase fechado. López o abriu aos poucos depois de 1852, quando a Argentina garantiu ao Paraguai a navegação no Paraná.

O governo de Carlos Antonio López controlava metade das terras do país e tinha o monopólio da exportação de erva-mate. Não tomou empréstimos em Londres. Comprou máquinas, trilhos e armas por meio da casa londrina J. and A. Blyth e contratou técnicos estrangeiros, quase todos britânicos. A historiadora Josefina Pla calculou cerca de 200 súditos britânicos sob contrato no Paraguai antes da guerra, sem contar mulheres e crianças. Eles trabalhavam no estaleiro e no arsenal de Assunção, na fundição de ferro de Ibicuí, na ferrovia, no telégrafo e no corpo médico do Exército.

Francisco Solano López, filho mais velho de Carlos Antonio, nasceu em Assunção em 24 de julho de 1826 ou de 1827. As fontes divergem sobre o ano. Em 1853, Solano López foi à Europa como ministro plenipotenciário junto ao Reino Unido, à França e ao Reino da Sardenha. Passou a maior parte da viagem em Paris, comprou armas e navios a vapor e voltou com a irlandesa Eliza Lynch, que conheceu na França e que viveu com ele até 1870.

Daguerreótipo de Francisco Solano López jovem, em uniforme militar com dragonas e condecorações

Francisco Solano López em daguerreótipo feito na França por Hilaire David. O Wikimedia Commons data a imagem de cerca de 1854, durante a missão diplomática na Europa. Imagem: Wikimedia Commons, domínio público.

Carlos Antonio López morreu em 10 de setembro de 1862. O filho assumiu de forma provisória, como vice-presidente. Em 16 de outubro de 1862, o Congresso Nacional reunido em Assunção aprovou a lei que o designou presidente da República.

Em fevereiro de 1864, Solano López ordenou uma mobilização geral. Os números do Exército paraguaio variam muito. Bethell cita estimativas de 28 mil a 57 mil homens no exército permanente, mais 20 mil a 28 mil na reserva. Ou seja, segundo ele, quase toda a população masculina adulta estava em armas. Para comparação, o Exército argentino tinha de 25 mil a 30 mil homens, dos quais só 10 mil a 15 mil podiam ser usados numa guerra externa. O Uruguai tinha no máximo 5 mil. O Brasil tinha de 17 mil a 20 mil soldados de linha, além da Guarda Nacional, com reserva de até 200 mil homens.

Gráfico de barras com a população e o exército permanente de Brasil, Argentina, Uruguai e Paraguai no início da guerra

População e exército permanente dos quatro países no início da guerra, segundo as estimativas reunidas por Leslie Bethell. A população paraguaia é o número mais incerto: o próprio Bethell a marca com interrogação. Gráfico elaborado para este post com dados de Leslie Bethell, The Paraguayan War (1864-1870), Institute of Latin American Studies, Universidade de Londres, 1996, pp. 5-6.

Em população, o Brasil tinha de 9 milhões a 10 milhões de habitantes, dos quais 1,5 milhão a 2 milhões eram escravizados. A Argentina tinha 1,5 milhão. O Paraguai, entre 300 mil e 400 mil, segundo Bethell, bem menos que o 1 milhão ainda citado com frequência. Em soldados prontos para lutar em 1864, porém, o Paraguai provavelmente tinha a maior força da região.

O Uruguai como estopim

A sequência que levou à guerra começou no Uruguai. O país vivia uma longa disputa entre dois partidos, os blancos, conservadores, e os colorados, liberais. Em abril de 1863, o general colorado Venancio Flores saiu de Buenos Aires e invadiu o Uruguai para derrubar o presidente blanco Bernardo Berro. Flores tinha o apoio de Bartolomé Mitre, eleito presidente da Argentina em outubro de 1862. Os colorados tinham ajudado Mitre na guerra civil argentina de 1861, e Mitre via os blancos como aliados dos federalistas que resistiam a Buenos Aires.

O Brasil tinha outros motivos. No fim da década de 1850, mais de 20 mil brasileiros, quase todos gaúchos, viviam no Uruguai com seus escravizados. Segundo Bethell, eram mais de 10% da população uruguaia e possuíam talvez 30% das terras. O governo blanco eleito em 1860 tentou limitar a presença brasileira e taxar o comércio na fronteira. Os estancieiros do Rio Grande do Sul pressionaram o governo imperial a agir. Sem aliados nos dois vizinhos grandes, o governo blanco procurou o Paraguai. Em julho de 1863, uma missão uruguaia chegou a Assunção propondo uma aliança. Solano López hesitou.

Em março de 1864, Berro deixou o governo, e o presidente do Senado, Atanasio Aguirre, assumiu. Em maio, José Antônio Saraiva chegou a Montevidéu à frente de uma missão diplomática brasileira, seguido pela esquadra do almirante Tamandaré. Em 4 de agosto de 1864, Saraiva entregou um ultimato ao governo uruguaio: ou atendia às reclamações brasileiras ou o Império faria represálias. Em 30 de agosto, o governo paraguaio respondeu com uma nota ao representante brasileiro em Assunção. A nota dizia que o Paraguai consideraria qualquer ocupação do território uruguaio um atentado ao equilíbrio dos Estados do Prata.

O Brasil ignorou o aviso. Em outubro de 1864, tropas brasileiras entraram no Uruguai em apoio a Flores. Em 12 de novembro, o Paraguai apreendeu o vapor brasileiro Marquês de Olinda, que subia o rio Paraguai rumo a Mato Grosso com o novo presidente da província a bordo. Em dezembro, tropas paraguaias invadiram o sul de Mato Grosso. A cena abaixo recria a apreensão do vapor.

Cena recriada com IA: canhoneira paraguaia a vapor obriga um vapor brasileiro com a bandeira do Império a parar no rio Paraguai

Cena recriada com inteligência artificial para este post. Os fatos vêm de Leslie Bethell (1996), que registra a apreensão do Marquês de Olinda em 12 de novembro de 1864, e do artigo Capture of the steamer Marquês de Olinda, da Wikipédia, que cita Whigham (2018, pp. 160 e 161). A bandeira é a do Império do Brasil usada na época, verde com losango amarelo e brasão. As embarcações não reproduzem o desenho real do navio. Não é registro da época.

No Uruguai, brasileiros e colorados tomaram Paysandú em 2 de janeiro de 1865, depois de um mês de cerco. Em 20 de fevereiro, um acordo pôs fim à guerra civil e Flores assumiu o governo provisório.

Cena recriada com IA: soldados e canhões cercam uma pequena cidade uruguaia à beira do rio, com navios a vapor ao fundo e fumaça sobre a igreja

Cena recriada com inteligência artificial para este post: o cerco de Paysandú, entre 3 de dezembro de 1864 e 2 de janeiro de 1865, segundo o artigo Siege of Paysandú, da Wikipédia. A composição imita o estilo panorâmico de Cándido López, pintor argentino que lutou na guerra a partir de 1865 e não esteve em Paysandú. Não é registro da época.

Solano López queria atacar o Rio Grande do Sul passando por Misiones. Em janeiro de 1865, a Argentina negou a passagem. Em 18 de março, o Paraguai declarou guerra à Argentina. Em 13 de abril, navios paraguaios atacaram dois navios de guerra argentinos no porto de Corrientes, e tropas paraguaias ocuparam a cidade. O detalhe dessas campanhas fica para o episódio 2.

Bethell considera a guerra evitável. Para ele, depois que Flores invadiu o Uruguai, em abril de 1863, ela só não teria acontecido se três condições fossem cumpridas. O Brasil teria de ser menos agressivo na defesa dos brasileiros no Uruguai. A Argentina teria de ficar neutra entre Paraguai e Brasil. E o Paraguai teria de agir com mais prudência e defender seus interesses pela diplomacia.

O Tratado da Tríplice Aliança

O tratado foi assinado em Buenos Aires em 1º de maio de 1865, menos de três semanas depois do ataque a Corrientes. Assinaram o chanceler argentino Rufino de Elizalde, o chanceler uruguaio Carlos de Castro e, pelo Brasil, o enviado Francisco Otaviano de Almeida Rosa. O texto tem 19 artigos e um protocolo adicional. Os mais importantes, na versão britânica publicada em 1866, são estes:

  • Artigo III: o comando das forças terrestres aliadas cabe a Mitre enquanto a guerra se der em território argentino ou paraguaio vizinho. A esquadra fica com o almirante Tamandaré.
  • Artigo VI: os aliados não deporiam as armas, nem negociariam em separado, até derrubar o governo de Solano López.
  • Artigos VII e VIII: a guerra seria contra o governo paraguaio, e não contra o povo. Os aliados se comprometiam a respeitar a independência e a integridade territorial do Paraguai.
  • Artigo XIV: o Paraguai pagaria as despesas da guerra e as indenizações.
  • Artigo XVI: definia as novas fronteiras. A Argentina ficaria com o Chaco até a Bahía Negra, perto da fronteira boliviana. O Brasil ficaria com as terras até os rios Apa e Igureí.
  • Artigo XVIII: o tratado ficaria secreto até que o objetivo principal da aliança fosse alcançado.

O protocolo determinava a demolição da fortaleza de Humaitá, no rio Paraguai, e proibia a construção de outras parecidas. Também previa o desarmamento do Paraguai e a divisão das armas e dos troféus entre os aliados.

Cena recriada com IA: três diplomatas de sobrecasaca assinam papéis à luz de vela numa sala com um mapa da região do Prata na parede

Cena recriada com inteligência artificial para este post: a assinatura do Tratado da Tríplice Aliança em Buenos Aires, em 1º de maio de 1865, no estilo da pintura acadêmica do século XIX. A data e os signatários vêm do texto do tratado apresentado ao Parlamento britânico em 1866, reproduzido no artigo Treaty of the Triple Alliance, da Wikipédia. Os rostos não representam Elizalde, Castro e Otaviano, e a sala não reproduz o local real da assinatura. Não é registro da época.

Otaviano negociou sem instruções específicas do Rio de Janeiro, com quem não havia ligação por telégrafo. Desconfiado das intenções argentinas, insistiu na garantia da independência paraguaia. No Rio, a Seção de Negócios Estrangeiros do Conselho de Estado criticou o texto por facilitar ganhos territoriais argentinos. Concluiu que o Brasil devia impedir a Argentina de obter terras ao norte do rio Pilcomayo. Foi o que aconteceu depois da guerra, como contei no post anterior.

Trecho impresso de correspondência diplomática britânica de 1865, carta de Lettsom ao conde Russell datada de Montevidéu, 29 de maio de 1865

Trecho de carta do diplomata britânico William Garrow Lettsom ao chanceler Lord Russell, escrita em Montevidéu em 29 de maio de 1865 e recebida em Londres em 3 de julho, na coletânea "Correspondence Respecting Hostilities in the River Plate". Lettsom informa que o chanceler uruguaio Carlos de Castro prometeu lhe entregar uma cópia do tratado na semana seguinte e escreve, em tradução livre: "Os detalhes do tratado ainda não foram tornados públicos, mas muitas pessoas acham que conhecem suas principais cláusulas". Imagem: Wikimedia Commons, domínio público.

O sigilo durou menos de um ano. Carlos de Castro entregou a cópia a Lettsom, que em 27 de junho de 1865 enviou uma tradução a Londres. O governo britânico mandou imprimir o texto e apresentá-lo ao Parlamento em março de 1866. Bethell vê nisso um raro ato britânico que pode ser lido como hostil aos aliados. A publicação provocou protestos da Bolívia e do Peru. No Paraguai, o texto reforçou a ideia de que o país lutava pela própria existência. O engenheiro militar britânico George Thompson, que servia no Exército paraguaio, escreveu em 1869 que o protocolo lhe deu mais vontade de lutar, porque, pelos termos do acordo, o Paraguai teria de "lutar ou ser absorvido", em tradução livre do inglês.

As leituras da guerra

A explicação para a guerra mudou várias vezes em 150 anos, acompanhando a política de cada época e de cada país. É possível separar três grandes correntes, com variações nacionais.

A versão tradicional

Durante a guerra e nas décadas seguintes, a explicação dominante no Brasil e na Argentina culpava Solano López. Ele teria sido um ditador ambicioso que atacou os vizinhos sem motivo, e os aliados teriam lutado pela civilização contra a barbárie. Bethell aponta a contradição desse discurso no lado brasileiro. Depois da abolição nos Estados Unidos, o Brasil era o único país independente das Américas com a economia baseada na escravidão e a única monarquia restante no continente.

A primeira geração de estudos acadêmicos manteve esse enquadramento. Bethell agrupa os livros publicados entre o fim dos anos 1920 e o início dos anos 1960. São histórias diplomáticas sobre as origens da guerra, como The Origins of the Paraguayan War, de Pelham Horton Box, e histórias militares sobre como López foi derrotado, como a do general Augusto Tasso Fragoso, de 1934. Os relatos de quem lutou também alimentaram essa memória. O principal deles, para Bethell, é A Retirada da Laguna, do visconde de Taunay, publicado em francês em 1871.

No Paraguai, os primeiros governos do pós-guerra, formados sob ocupação aliada, também condenaram López e o declararam fora da lei. Em 1902, o advogado Cecilio Báez escreveu que a guerra foi resultado da tirania que vinha desde a colônia e se consolidou com Francia e os dois López. "Qualquer homem de bom senso compreenderá que López não devia intervir no conflito uruguaio-brasileiro, e muito menos provocar a guerra", escreveu Báez, em tradução livre.

O nacionalismo paraguaio e a figura de López

A resposta a Báez veio de um estudante de direito de pouco mais de 20 anos, Juan Emiliano O'Leary. Entre outubro de 1902 e 14 de fevereiro de 1903, os dois polemizaram pelos jornais La Patria e El Cívico, de Assunção. O'Leary assinava como Pompeyo González e atribuía a guerra às ambições do Império do Brasil e à cumplicidade do governo de Mitre. Segundo as historiadoras Liliana Brezzo e María Gabriela Micheletti, foi o primeiro debate público sobre o passado na história paraguaia. O'Leary publicou Nuestra epopeya em 1919 e a biografia El Mariscal Solano López em 1925.

A mudança virou política de Estado depois da Guerra do Chaco. Em 1º de março de 1936, 66 anos depois de Cerro Corá, o governo do coronel Rafael Franco publicou o decreto nº 66. O primeiro artigo cancelava "para sempre" os decretos contra López emitidos pelos governos do pós-guerra. O segundo o declarava "herói nacional sem exemplo". Hoje, 1º de março é o Dia dos Heróis no Paraguai. Durante a ditadura de Alfredo Stroessner, de 1954 a 1989, O'Leary foi declarado "historiador nacional" por decreto e ganhou uma estátua em vida. Em entrevista à Folha de S.Paulo em 2002, Doratioto disse que, sob Stroessner, ser antilopista "era considerado crime".

Na Argentina, o jurista Juan Bautista Alberdi defendeu a causa paraguaia em textos publicados durante a própria guerra. Segundo Doratioto, boa parte da leitura da guerra feita por historiadores peronistas retratava de forma positiva líderes autoritários do Prata, para justificar o autoritarismo de Perón, e por isso destacava a figura de Solano López em vez da de Mitre.

Pintura de uma mulher paraguaia em luto, de pé sobre um campo devastado, com corpos e ruínas ao fundo

La Paraguaya, do pintor uruguaio Juan Manuel Blanes, de cerca de 1879. A mulher em luto sobre o campo devastado é uma das imagens mais conhecidas da memória da guerra. Museo Nacional de Artes Visuales, Montevidéu. Foto: Eduardo Baldizan, Wikimedia Commons, domínio público.

O revisionismo dos anos 1960 e 1970

A segunda grande corrente surgiu no fim dos anos 1960. Ela partiu da valorização de López e acrescentou um culpado externo: o Império Britânico. O livro de referência é La guerra del Paraguay: ¡gran negocio!, do argentino León Pomer, publicado em Buenos Aires em 1968. A tese tinha influência da teoria da dependência. Em 1967, o economista Andre Gunder Frank já incluía a guerra contra o Paraguai entre os conflitos instigados pelas potências metropolitanas. Eric Hobsbawm, em A Era do Capital, de 1975, escreveu que "Argentina, Uruguai e Brasil, com os rostos e as economias voltados para o Atlântico, forçaram o Paraguai a sair de sua autossuficiência", em tradução livre da passagem em inglês citada por Bethell.

Nessa leitura, o Paraguai dos López era um modelo de desenvolvimento autônomo, sem dívida externa e com indústria própria. A Grã-Bretanha teria usado Brasil e Argentina para destruí-lo, abrir o mercado paraguaio e garantir algodão durante a Guerra Civil Americana. A versão mais extrema, segundo Bethell, está na tese de doutorado do nicaraguense José Alfredo Fornos Peñalba, defendida na Universidade da Califórnia em Los Angeles em 1979, com o título "The fourth ally", ou seja, "o quarto aliado".

No Brasil, o livro mais lido dessa corrente foi Genocídio americano: a Guerra do Paraguai, do escritor Júlio José Chiavenato, lançado pela Editora Brasiliense em 1979, ainda durante a ditadura militar. Em 1980, já estava na 9ª edição, segundo o catálogo da biblioteca da Universidade de Notre Dame. Chiavenato tratou a destruição do Paraguai como genocídio e a Grã-Bretanha como financiadora da aliança. Doratioto disse à Folha que, quando ele próprio era estudante, a interpretação revisionista era a dominante, e que boa parte do material didático de 2002 ainda a seguia.

Segundo Bethell, a tese britânica não se sustenta nos documentos. Estes são os principais argumentos que ele reúne contra ela:

  • O Brasil tinha rompido relações diplomáticas com a Grã-Bretanha mais de um ano antes da guerra, por causa da Questão Christie, que incluiu um bloqueio naval britânico de seis dias entre dezembro de 1862 e janeiro de 1863. As relações só foram reatadas em 1865, com a guerra em andamento.
  • O historiador E. N. Tate examinou a correspondência oficial britânica e não encontrou sinal de que Londres quisesse a guerra ou trabalhasse por ela.
  • O paraguaio Diego Abente mostrou que a indústria britânica já tinha outras fontes de algodão, como Egito, Índias Ocidentais e o próprio Brasil, antes da guerra.
  • Os empréstimos britânicos existiram, mas cobriram pouco. O Brasil obteve 7 milhões de libras dos Rothschild em setembro de 1865. A Argentina não conseguiu vender nem metade dos títulos oferecidos pelo banco Baring em 1866. O historiador Carlos Marichal calculou que os empréstimos externos pagaram 15% dos gastos de guerra do Brasil e 20% dos da Argentina.
  • Dez anos depois da guerra, o investimento britânico no Paraguai era de 1,5 milhão de libras, menos de 1% do investimento britânico na América Latina.

Bethell conclui que a responsabilidade pela guerra cabe ao Brasil, à Argentina, ao próprio Paraguai e, em menor grau, ao Uruguai.

A revisão recente e Maldita guerra

A terceira corrente começou a se formar nos anos 1980 e 1990. Um dos primeiros trabalhos no Brasil foi Guerra do Paraguai: escravidão e cidadania na formação do exército, de Ricardo Salles, de 1990. Em 1996, Bethell publicou o ensaio usado como base de boa parte deste post. Em 2002, saíram dois livros centrais dessa nova leitura: The Paraguayan War: Causes and Early Conduct, do americano Thomas Whigham, e Maldita guerra: nova história da Guerra do Paraguai, de Francisco Doratioto.

Doratioto é formado em história pela USP e doutor em história das relações internacionais pela Universidade de Brasília. Segundo a editora, o livro resulta de mais de 15 anos de pesquisa em arquivos do Brasil, do Prata e da Europa, e o autor viveu três anos no Paraguai. Uma nova edição saiu em 2022. Na entrevista de 2002 à Folha, ele contou que começou a pesquisa ao encontrar uma carta de Caxias de dezembro de 1868 e que a documentação dizia "exatamente o contrário" do que ele tinha aprendido e ensinado como professor.

Para Doratioto, a guerra foi fruto das contradições platinas e teve como razão última a consolidação dos Estados nacionais na região. Cada governo via a guerra por uma ótica. Para Solano López, era a chance de transformar o Paraguai em potência regional e conseguir acesso ao mar pelo porto de Montevidéu, aliado aos blancos e aos federalistas argentinos de Urquiza. Para Mitre, era o meio de consolidar o Estado argentino centralizado. Para os blancos, o apoio paraguaio impediria novas intervenções dos vizinhos no Uruguai. Para o Império, a guerra não era esperada nem desejada, mas, uma vez iniciada, prometia uma vitória rápida, o fim da disputa de fronteira e a queda de López. "Aqui não há 'bandidos' ou 'mocinhos', como quer o revisionismo infantil, mas sim interesses", escreve ele.

Doratioto não absolve López. No mesmo trecho, afirma que o erro de análise de maiores consequências foi o do presidente paraguaio, cujo país foi arrasado, e lembra que foi ele o agressor, ao atacar primeiro o Brasil e depois a Argentina. Ao mesmo tempo, reconhece um mérito no revisionismo. Segundo ele, "durante muitos anos a história da guerra havia ficado esquecida". Para ele, o mérito "se esgota nesse resgate".

A revisão recente não encerrou as discussões. Whigham, por exemplo, escreveu em 2018 que os campos lopista e antilopista se mostraram resistentes à nova pesquisa e que os lopistas ganharam espaço na internet. O número de mortos paraguaios é o caso mais claro. Em 1988, a historiadora Vera Blinn Reber propôs uma população anterior à guerra menor e perdas bem menores que as tradicionais. Em 1999, Thomas Whigham e Barbara Potthast estimaram de 420 mil a 450 mil habitantes em 1864 e de 140 mil a 166 mil sobreviventes depois da guerra, o que equivale a uma perda de 60% a 69% da população. Esse debate fica para o episódio 5.

O que vem no episódio 2

O próximo episódio, na semana que vem, cobre os anos de 1864 e 1865: a invasão de Mato Grosso, a ocupação de Corrientes, a batalha naval do Riachuelo, em 11 de junho de 1865, e a rendição paraguaia em Uruguaiana, em setembro, diante de D. Pedro II, Mitre e Flores.


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Para saber mais

Livros:

  • Livro: Maldita guerra: nova história da Guerra do Paraguai, de Francisco Doratioto. Companhia das Letras, 2002. Nova edição em 2022, ISBN 978-6559212866.
  • Livro: The Paraguayan War: Causes and Early Conduct, de Thomas L. Whigham. 2ª edição, University of Calgary Press, 2018. A editora oferece o PDF em acesso aberto.
  • Livro: The Road to Armageddon: Paraguay Versus the Triple Alliance, 1866-70, de Thomas L. Whigham. University of Calgary Press, 2017, em acesso aberto na OAPEN.
  • Livro: Genocídio americano: a Guerra do Paraguai, de Júlio José Chiavenato. Brasiliense, 1979.
  • Livro: La guerra del Paraguay: ¡gran negocio!, de León Pomer. Buenos Aires, 1968.
  • Livro: Guerra do Paraguai: escravidão e cidadania na formação do exército, de Ricardo Salles. Rio de Janeiro, 1990.
  • Livro: I Die with My Country: Perspectives on the Paraguayan War, 1864-1870, organizado por Hendrik Kraay e Thomas L. Whigham. University of Nebraska Press, 2004.

Artigos, entrevistas e documentos:

Imagens:

  • Mapa das disputas territoriais em 1864: Hoodinski, Wikimedia Commons, CC BY-SA 3.0.
  • Mapa da bacia do Prata: Kmusser, Wikimedia Commons, CC BY-SA 3.0.
  • Daguerreótipo de Francisco Solano López: Hilaire David, c. 1854, Wikimedia Commons, domínio público.
  • Carta de Lettsom a Russell, 29 maio 1865: Wikimedia Commons, domínio público.
  • La Paraguaya, de Juan Manuel Blanes, c. 1879: Museo Nacional de Artes Visuales, Montevidéu, foto de Eduardo Baldizan, Wikimedia Commons, domínio público.
  • Gráfico de população e exércitos: elaborado para este post com dados de Leslie Bethell (1996).
  • Cenas da apreensão do Marquês de Olinda, do cerco de Paysandú e da assinatura do tratado: recriadas com inteligência artificial para este post.