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Por que o Brasil não anexou o Paraguai na guerra?
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- Michel Fernandes
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A Guerra do Paraguai foi travada entre 1864 e 1870 e envolveu o Paraguai contra a Tríplice Aliança composta por Brasil, Argentina e Uruguai. Apesar da vitória esmagadora, o Brasil optou por não anexar o território paraguaio. Neste post, exploraremos as principais razões dessa decisão e como ela se alinhou à estratégia diplomática e econômica do Império.
Como mostra Francisco Doratioto em Maldita guerra, o conflito precisa ser compreendido a partir do processo histórico da Bacia do Prata, marcado por disputas de fronteira, pela formação dos Estados nacionais e pela competição em torno da navegação regional. Essa interpretação contesta a explicação simplificadora de que a guerra teria sido provocada pelo imperialismo britânico e ajuda a entender por que, ao final dos combates, o principal objetivo brasileiro não era incorporar o Paraguai, mas assegurar uma configuração regional favorável aos interesses do Império.
O governo brasileiro, sob orientação do ministro das Relações Exteriores Otaviano de Almeida, insistiu para que o Tratado da Tríplice Aliança garantisse a independência do Paraguai. A ideia era manter o país vizinho como um amortecedor (“buffer state”) entre o Brasil e a Argentina, evitando que esta última ampliasse sua influência no Planalto Central.
Essa preocupação fazia parte de uma disputa mais ampla pelo equilíbrio de poder no Prata. Embora Brasil e Argentina fossem aliados contra Solano López, seus projetos para o pós-guerra não eram idênticos. Preservar um Paraguai independente limitava a expansão territorial e política argentina e dava ao Império melhores condições para negociar fronteiras, circulação fluvial e influência diplomática.
Embora o artigo XVI do Tratado de 1865 previsse ceder ao vizinho argentino uma faixa do Chaco, o Brasil atuou para frustrar essa implementação. Como resultado, grande parte do Chaco Central permaneceu sob jurisdição paraguaia até hoje, preservando a integridade territorial do país.
A devastação do Paraguai e a drástica redução da sua população tornavam qualquer anexação custosa. Em vez disso, o Brasil optou por reparações financeiras (via Tratado Loizaga–Cotegipe) e manteve tropas de ocupação até 1876, quando finalmente se retirou e devolveu ao Paraguai sua independência política.
Luiz Octávio Lima, em A Guerra do Paraguai, aproxima o leitor dessa dimensão humana por meio de uma narrativa de caráter jornalístico. Além de governantes e comandantes, o livro acompanha combatentes submetidos à fome, às doenças e às privações, assim como mulheres, crianças e escravizados que enxergaram no serviço militar uma possível via para a liberdade. Esse quadro ajuda a dimensionar o custo político, econômico e humano que uma ocupação permanente exigiria de um Brasil já desgastado por cinco anos de guerra.
Doratioto também reconstitui o cotidiano dos exércitos e reavalia a atuação de chefes como Mitre, Tamandaré e Caxias, enquanto examina a neutralidade das potências europeias, a simpatia internacional pela causa paraguaia e a posição favorável ao Paraguai assumida por outros países americanos. Esse contexto reforça que uma anexação poderia criar resistência diplomática e prolongar uma crise que o Império precisava encerrar.
No século XIX, os rios Paraguai e Paraná eram “vias vitais” para o escoamento de mercadorias. Um Paraguai independente — ainda que sob forte influência brasileira — assegurava acesso livre às hidrovias, sem risco de boicotes ou bloqueios que poderiam ocorrer caso o país fosse totalmente absorvido pelo Brasil.
Para saber mais
- Maldita guerra: Nova história da Guerra do Paraguai, de Francisco Doratioto. Uma obra de referência baseada em extensa pesquisa documental em arquivos e bibliotecas do Brasil, do Rio da Prata e da Europa.
- A Guerra do Paraguai, de Luiz Octávio Lima. Uma narrativa histórica com ritmo de reportagem sobre o conflito, seus protagonistas e os dramas vividos por combatentes e civis.
- Tratado da Tríplice Aliança (1865), incluindo seus protocolos secretos.
- Obras de Thomas Whigham e Barbara Potthast sobre os aspectos demográficos, sociais e econômicos do conflito.
- Estudos sobre a diplomacia regional do século XIX, com atenção aos debates no Conselho de Estado brasileiro e na Corte de Buenos Aires.