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Guerra do Paraguai, episódio 2: invasões e Riachuelo

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Neste post, sigo para o segundo episódio da série sobre a Guerra do Paraguai. O episódio 1 tratou dos antecedentes, da apreensão do vapor Marquês de Olinda e do texto do Tratado da Tríplice Aliança. Este cobre o primeiro ano da guerra, de dezembro de 1864 a novembro de 1865. São duas ofensivas paraguaias, uma ao norte, em Mato Grosso, e outra ao sul, em Corrientes e no Rio Grande do Sul. No meio delas, em 11 de junho de 1865, a esquadra brasileira destruiu a esquadra paraguaia no Riachuelo.

A declaração de guerra ao Brasil

Em 13 de dezembro de 1864, o Paraguai declarou guerra ao Brasil. Um mês antes, já tinha apreendido o Marquês de Olinda. Segundo Leslie Bethell, a guerra teve três fases. A primeira começou com as ofensivas paraguaias limitadas contra Mato Grosso, em dezembro de 1864, e contra Corrientes, em abril de 1865. Ela terminou no fim de 1865, quando o Exército paraguaio recuou para o próprio território.

O Brasil não estava pronto para lutar em Mato Grosso. Segundo Francisco Doratioto, citado no artigo da Wikipédia sobre a campanha, a província deveria ter 3.879 soldados. Em meados de 1864, tinha menos de 900, espalhados por cinco distritos militares. Dos seis pequenos vapores da província, só um tinha artilharia. O único ponto capaz de resistir era o Forte Novo de Coimbra, à margem do rio Paraguai.

A invasão de Mato Grosso

O Paraguai invadiu Mato Grosso com duas colunas. A primeira subiu o rio Paraguai em navios. Saiu de Assunção em 24 de dezembro de 1864, sob o comando do coronel Vicente Barrios, cunhado de Solano López. Levava cerca de 3.200 homens, segundo a Wikipédia em português, ou 3.248, segundo a versão em inglês, que cita o historiador Terry Hooker.

Em 27 de dezembro, essa coluna atacou o Forte de Coimbra. A guarnição tinha cerca de 155 homens, comandados pelo tenente-coronel Hermenegildo de Albuquerque Portocarrero. Resistiu dois ou três dias, conforme a fonte. Quando a munição acabou, os defensores abandonaram o forte à noite e subiram o rio rumo a Corumbá, a bordo da canhoneira Anhambaí. A Figura 1 mostra a versão paraguaia do ataque.

Gravura em madeira de um forte em forma de estrela à beira de um rio, com soldados fugindo pelos fundos, canhões disparando da margem e dois barcos com canhões no rio

Figura 1. "El asalto y toma de Coimbra", gravura de G. Y. Aquino publicada no jornal paraguaio de trincheira Cabichuí em 30 de dezembro de 1867, três anos depois do ataque. A imagem mostra os canhões paraguaios disparando contra o forte e a fuga dos defensores. Acervo da Biblioteca Nacional del Paraguay. Imagem: Wikimedia Commons, domínio público.

Os paraguaios seguiram rio acima. Em 1º de janeiro de 1865, tomaram sem luta o posto de Albuquerque. O comandante militar da província, coronel Carlos Augusto de Oliveira, abandonou Corumbá com os oficiais em 2 de janeiro, e os paraguaios entraram na vila no dia seguinte.

A segunda coluna foi por terra. Partiu de Concepción em 26 de dezembro de 1864, com o coronel Francisco Isidoro Resquín. Em 29 de dezembro, um destacamento atacou a colônia militar de Dourados. O tenente Antônio João Ribeiro mandou retirar os civis e ficou no posto com cerca de 15 homens. Recusou a rendição e morreu em combate com seus companheiros. Os invasores passaram depois por Nioaque e Miranda e chegaram a Coxim em abril de 1865.

Os paraguaios não avançaram até Cuiabá, a capital da província. Ficaram com o sul de Mato Grosso, que Bethell chama de frente secundária da guerra. Uma coluna brasileira saiu de São Paulo e de Minas Gerais em 1865 para retomar a região. A marcha dela, que terminou na Retirada da Laguna, em 1867, fica para o episódio 3.

A invasão de Corrientes

Solano López queria chegar ao Rio Grande do Sul e ao Uruguai passando pela província argentina de Corrientes. Em janeiro de 1865, Mitre negou a passagem. Em 18 de março, o Paraguai declarou guerra à Argentina. O mensageiro que levava a declaração atrasou no caminho, e o público argentino soube da invasão antes de saber da guerra.

Em 13 de abril de 1865, cinco vapores paraguaios chegaram ao porto de Corrientes. Atacaram os vapores argentinos 25 de Mayo e Gualeguay, que estavam em conserto no porto, e os capturaram. No dia seguinte, as tropas do general Wenceslao Robles ocuparam a cidade. Em poucos dias, segundo a Wikipédia em inglês, o efetivo paraguaio na província passou de 25 mil homens. A notícia chegou a Buenos Aires e Mitre fez um discurso com uma frase que depois foi muito criticada: "em 24 horas nos quartéis, em 15 dias em Corrientes, em três meses em Assunção", em tradução livre.

Em 1º de maio, Brasil, Argentina e Uruguai assinaram o Tratado da Tríplice Aliança, em Buenos Aires. Os artigos do tratado estão no episódio 1. Para este episódio, importa o artigo III. Mitre ficou com o comando das forças terrestres aliadas, e o almirante Tamandaré ficou com a esquadra brasileira, que não se subordinava a Mitre.

O Exército paraguaio avançou para o sul pela margem do Paraná e tomou Bella Vista, Empedrado e Goya. Em 25 de maio, tropas argentinas do general Wenceslao Paunero desembarcaram em Corrientes, levadas pela esquadra brasileira. Expulsaram os paraguaios da cidade, mas a abandonaram dois dias depois, porque não tinham como mantê-la. O ataque mostrou que a esquadra brasileira no Paraná deixava o flanco paraguaio exposto. Solano López decidiu destruí-la.

Mapa da bacia dos rios Paraná e Uruguai com setas que mostram o avanço paraguaio para o sul em 1865 e o contra-ataque aliado, com Corrientes, Riachuelo, São Borja e Uruguaiana marcados

Figura 2. O avanço paraguaio pelos rios Paraná e Uruguai em 1865 e o contra-ataque aliado. Os números indicam as datas no formato mês.dia: Corrientes em 4.14, Riachuelo em 6.11, Uruguaiana de 8.5 a 9.18. A coluna 1 é a de Robles, a 3 é a de Estigarribia. Mapa: 赤奋若, Wikimedia Commons, CC BY-SA 4.0.

A batalha do Riachuelo

A esquadra brasileira no Paraná era comandada pelo chefe de divisão Francisco Manuel Barroso da Silva (Figura 3). Barroso nasceu em Lisboa em 29 de setembro de 1804 e entrou para a Academia de Marinha em 1821. Saiu de Montevidéu em 28 de abril de 1865, a bordo da fragata Amazonas, para assumir a força que bloqueava o rio.

Fotografia de Francisco Manuel Barroso da Silva idoso, de barba branca, em uniforme de almirante com condecorações no peito

Figura 3. O almirante Francisco Manuel Barroso da Silva, barão do Amazonas, em fotografia de autor não identificado, de cerca de 1875. Imagem: Wikimedia Commons, domínio público.

Na manhã de 11 de junho de 1865, um domingo, os nove navios de Barroso estavam ancorados no Paraná, abaixo da cidade de Corrientes. Somavam 58 ou 59 canhões, conforme a fonte. O plano paraguaio era chegar antes do amanhecer e abordar os navios brasileiros enquanto boa parte das tropas dormia em terra. A esquadra paraguaia saiu da fortaleza de Humaitá na noite de 10 de junho, com o capitão Pedro Ignacio Meza no comando. Eram oito vapores, entre eles o próprio Marquês de Olinda, rebocando chatas, barcaças com um canhão pesado cada. Um nono vapor, o Yberá, quebrou no caminho, e o atraso acabou com a surpresa. As duas esquadras só se avistaram por volta das 9 horas.

Os paraguaios passaram pelos brasileiros rio abaixo e se posicionaram perto da foz do arroio Riachuelo. Ali havia 22 canhões em terra, no barranco, e baterias de foguetes Congreve. Barroso relatou depois, em carta, que essas 20 a 22 peças, apoiadas por "mosquetaria de mais de mil espingardas", faziam "um mortífero fogo sobre os nossos navios".

Os navios brasileiros desceram o rio para atacar. A corveta Jequitinhonha saiu da fila, encalhou num banco de areia diante das baterias e ficou presa. A corveta Parnaíba foi abordada por três navios paraguaios, e a luta no convés chegou ao corpo a corpo. Na defesa do navio, o guarda-marinha João Guilherme Greenhalgh e o marinheiro Marcílio Dias receberam ferimentos mortais. Durante o combate, a Amazonas içou os dois sinais que a Marinha do Brasil repete todo 11 de junho: "O Brasil espera que cada um cumpra o seu dever" e "Sustentar o fogo, que a vitória é nossa".

Barroso então usou a Amazonas, a maior das embarcações nos dois lados, como aríete. A fragata investiu de proa contra vapores paraguaios, pôs vários fora de combate e afundou uma chata. As fontes divergem sobre a ordem e os nomes dos navios atingidos. A Figura 4 mostra a fragata no centro da cena.

Pintura de batalha naval com uma fragata a vapor no centro, envolta em fumaça, com marinheiros no convés, náufragos na água e destroços de barcos no primeiro plano

Figura 4. "Combate Naval do Riachuelo", de Victor Meirelles, segunda versão, pintada entre 1882 e 1883. No centro, a fragata Amazonas, capitânia de Barroso. Museu Histórico Nacional, Rio de Janeiro. Imagem: Wikimedia Commons, domínio público.

No fim do dia, o Paraguai tinha perdido quatro vapores e as chatas. O Brasil perdeu a Jequitinhonha, que ficou encalhada e foi incendiada. Do lado brasileiro, morreram 104 homens, e houve cerca de 140 feridos e 20 desaparecidos. As perdas paraguaias variam mais. A Wikipédia em português e o blog do Exército Brasileiro falam em cerca de 350 mortos e 567 feridos. A Wikipédia em inglês, com base em Hooker, dá 750 baixas. Meza foi ferido no peito e morreu dias depois no hospital de Humaitá.

Para Bethell, Riachuelo foi a única grande batalha naval da guerra. A Marinha brasileira destruiu a paraguaia e impôs um bloqueio que manteve até o fim do conflito. O Paraguai ficou sem como receber armas do exterior, inclusive os navios encouraçados que tinha encomendado na Europa. Desde então, 11 de junho é a data magna da Marinha do Brasil. Barroso recebeu em 1866 o título de barão do Amazonas, em referência à fragata.

A vitória não abriu o caminho até Assunção. Rio acima, a fortaleza de Humaitá continuou fechando o rio Paraguai por quase três anos.

Do Rio Grande do Sul a Uruguaiana

Enquanto Robles descia pelo Paraná, a outra coluna paraguaia, com o coronel Antonio de la Cruz Estigarribia, seguia pelo rio Uruguai. Ela invadiu o Rio Grande do Sul por São Borja em junho de 1865 e ocupou Uruguaiana, sem resistência, em 5 de agosto. Uma força menor, com Pedro Duarte, avançava pela margem argentina do rio. Em 17 de agosto, tropas aliadas comandadas por Venancio Flores derrotaram Duarte na batalha de Yatay.

Estigarribia ficou cercado em Uruguaiana. Em 11 de setembro, D. Pedro II chegou ao acampamento aliado, onde já estavam Mitre e Flores. Foi a única vez que o imperador esteve na zona de guerra. Em 18 de setembro, sem comida, Estigarribia se rendeu. Segundo o blog do Exército Brasileiro, os aliados fizeram 5.545 prisioneiros, dos quais 59 oficiais. Bethell dá a data de 14 de setembro para a rendição, mas o relato do Exército e a Wikipédia, que cita Doratioto, registram o dia 18.

Depois de Uruguaiana, Solano López retirou suas tropas de Corrientes. Entre 31 de outubro e 3 de novembro de 1865, o Exército paraguaio atravessou o Paraná de volta em Paso de la Patria. No fim do primeiro ano de guerra, os únicos soldados paraguaios em território aliado estavam no sul de Mato Grosso.

O que vem no episódio 3

O próximo episódio cobre os anos de 1866 a 1868: a invasão aliada do Paraguai, a batalha de Tuiuti, em 24 de maio de 1866, a derrota aliada em Curupaiti e o cerco de Humaitá.

Leia também: Guerra do Paraguai, episódio 1: antecedentes e historiografia.


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Para saber mais

Livros:

Artigos e páginas:

Imagens:

  • Figura 1: "El asalto y toma de Coimbra", G. Y. Aquino, Cabichuí, 30 dez. 1867, Wikimedia Commons, domínio público.
  • Figura 2: mapa do avanço paraguaio em 1865, 赤奋若, 2015, Wikimedia Commons, CC BY-SA 4.0.
  • Figura 3: Francisco Manuel Barroso da Silva, fotógrafo não identificado, c. 1875, Wikimedia Commons, domínio público.
  • Figura 4: "Combate Naval do Riachuelo", Victor Meirelles, 1882-1883, Wikimedia Commons, domínio público.