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Guerra do Paraguai, episódio 3: de Tuiuti a Humaitá

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Neste post, chego ao terceiro episódio da série sobre a Guerra do Paraguai. O episódio 1 tratou dos antecedentes e das leituras da guerra. O episódio 2 cobriu o primeiro ano, com as invasões de Mato Grosso e de Corrientes e a batalha naval do Riachuelo. Este vai de abril de 1866 a agosto de 1868. São pouco mais de dois anos em que os aliados lutaram quase sempre no mesmo pedaço de terra, um triângulo de pântanos no sul do Paraguai, entre o rio Paraná e a fortaleza de Humaitá.

Leslie Bethell chama esse período de segunda fase da guerra, a principal. Ela começou com a travessia do Paraná, em 16 de abril de 1866, e só terminou com a entrada dos aliados em Assunção, em janeiro de 1869. Este episódio para na queda de Humaitá. O resto fica para o episódio 4.

A invasão do Paraguai

No fim de 1865, o Exército paraguaio tinha voltado para casa. Os aliados precisavam então atravessar o Paraná e entrar no Paraguai. O ponto escolhido foi a confluência dos rios Paraná e Paraguai, perto de Paso de la Patria. Em 16 de abril de 1866, tropas brasileiras sob o comando do general Manuel Luís Osório cruzaram o rio e ocuparam o forte de Itapirú. No mesmo dia passaram o general uruguaio Venancio Flores e o 1º Corpo do Exército argentino. Até o dia 23, os paraguaios recuaram para trás de um grande banhado chamado Estero Bellaco.

O comandante geral dos aliados era o presidente argentino Bartolomé Mitre. O cargo vinha do Tratado da Tríplice Aliança. Na prática, a maior parte das tropas era brasileira. Segundo Bethell, em agosto de 1867 três quartos dos 40 mil a 45 mil soldados aliados em campanha eram brasileiros.

O terreno favorecia quem defendia. O sul do Paraguai é plano e alagado, cheio de banhados e matas fechadas.

Em 2 de maio de 1866, Francisco Solano López mandou atacar a vanguarda aliada no Estero Bellaco. O ataque foi comandado pelo coronel José Eduvigis Díaz. A Wikipédia em inglês dá números de 4.500 a 6.000 paraguaios. Eles pegaram as tropas de Flores na hora do almoço e quase capturaram o próprio general uruguaio. A retaguarda brasileira de Osório conteve o avanço. Os dois lados perderam perto de 2.000 homens cada um, entre mortos e feridos. Os paraguaios levaram quatro canhões e várias carroças de armas.

Tuiuti, 24 de maio de 1866

Os aliados ficaram parados mais de duas semanas e voltaram a avançar em 20 de maio. Acamparam num lugar chamado Tuiuti, que a Wikipédia em inglês descreve como uma savana pantanosa de arbustos. López tinha transferido seu quartel-general para Paso Pucú. Ao saber que os aliados pretendiam atacar no dia 25, ele decidiu atacar primeiro, no dia 24.

O sinal foi um foguete Congreve, disparado às 11h55. Os paraguaios avançaram em três colunas, segundo a Wikipédia em inglês:

  • o general Vicente Barrios, com 8.000 soldados de infantaria e 1.000 de cavalaria, contra a esquerda aliada, onde estavam os brasileiros de Osório
  • o general Isidoro Resquín, com 7.000 cavaleiros e 3.000 infantes, contra a direita, onde estavam os argentinos
  • o coronel José Eduvigis Díaz, com 6.000 infantes e 1.000 cavaleiros, contra o centro, ocupado pela divisão de vanguarda de Flores

O coronel Hilario Marcó ficou na reserva, com 7.000 homens e 48 canhões. Somadas, as três colunas de ataque tinham cerca de 26 mil homens. É a maior batalha campal já travada na América do Sul.

O centro aliado cedeu primeiro. Os uruguaios e alguns batalhões brasileiros de Voluntários da Pátria recuaram. Na frente do acampamento estava o 1º Regimento de Artilharia a Cavalo, do tenente-coronel Émile Louis Mallet. Segundo a Wikipédia em português, ele tinha 28 canhões La Hitte, de carregar pela boca. O acampamento ficava a pouco mais de 1.600 metros dos paraguaios. Por isso Mallet mandou cavar à noite, em silêncio, um fosso largo e fundo diante das peças. Os atacantes não podiam vê-lo.

A cavalaria paraguaia chegou a 50 metros dos canhões e parou no fosso. Ali ficou ao alcance da metralha. A tradição do Exército Brasileiro atribui a Mallet a frase "Eles que venham. Por aqui não passarão". Os canhões dele dispararam tão rápido que ganharam o apelido de "artilharia revólver".

Pintura panorâmica de uma planície com centenas de cavaleiros de casaca vermelha em combate, soldados caídos no chão e fumaça de tiros no horizonte

Figura 1. "Episodio de la 2da División Buenos Aires en la batalla de Tuyutí, Mayo 24 de 1866", óleo de Cándido López, pintado entre 1876 e 1885. López lutou na guerra como oficial argentino e fez esboços no campo. Em Curupaiti, perdeu o braço direito e depois aprendeu a pintar com a esquerda. Imagem: Wikimedia Commons, domínio público.

Os paraguaios tentaram contornar a artilharia e esbarraram na 3ª Divisão de Infantaria, do brigadeiro Antônio de Sampaio. A divisão resistiu no barro, mas Sampaio foi ferido e morreu. Osório lançou as reservas, inclusive a 2ª Divisão de Cavalaria do general João Manuel Mena Barreto. As colunas paraguaias foram cercadas e destruídas. No setor argentino, a cavalaria de Resquín pôs para correr a cavalaria argentina, mas também não rompeu a linha.

Às 16h, o combate tinha acabado. O inglês George Thompson, engenheiro a serviço do Paraguai, estava lá e escreveu em 1869:

"Os paraguaios deixaram 6.000 mortos no campo. Os aliados só fizeram cerca de 350 prisioneiros, todos feridos. [...] 7.000 feridos entraram nos hospitais paraguaios. [...] Os aliados perderam mais de 8.000 entre mortos e feridos."

Os números variam muito de autor para autor. O coronel paraguaio Juan Crisóstomo Centurión fala em 5.000 mortos paraguaios ou mais. A Wikipédia em português, com base em fontes brasileiras, dá 3.931 baixas aliadas: 996 mortos e 2.935 feridos. Desse total, 737 mortos e 2.292 feridos eram brasileiros. Os argentinos tiveram 126 mortos e 480 feridos. A mesma página estima as baixas paraguaias em cerca de 13 mil, perto da metade da força de ataque.

Segundo Thompson, os aliados empilharam os corpos paraguaios com lenha, em montes de 50 a 100, e os queimaram.

Para o Paraguai, a perda foi difícil de repor. Bethell calcula que o país mobilizou de 70 mil a 80 mil homens durante toda a guerra e podia ter de 30 mil a 40 mil em armas ao mesmo tempo. Depois de Tuiuti, raramente pôs em campo mais de 20 mil.

No Brasil, Tuiuti é lembrada como a "batalha dos patronos". Três dos patronos das armas do Exército lutaram nela: Osório, da cavalaria, Sampaio, da infantaria, e Mallet, da artilharia. O 24 de maio é o Dia da Infantaria por causa de Sampaio.

Três meses parados

Os aliados venceram, mas não perseguiram os paraguaios. Tinham poucos cavalos e precisavam se reorganizar. Ficaram no acampamento de Tuiuti até setembro. A Wikipédia em inglês registra que as doenças fizeram cerca de 10 mil vítimas nesse acampamento. Os soldados chamaram esse período de "linhas negras de Tuiuti", com escaramuças e tiros esporádicos.

Em julho houve mais choques. Em 16 de julho, o general brasileiro Guilherme de Sousa atacou com 3.000 homens uma trincheira paraguaia no Boquerón. A luta durou 16 horas. Os brasileiros perderam 282 mortos e 1.579 feridos, e os paraguaios, cerca de 2.000 homens. Dois dias depois, no Sauce, os aliados atacaram de novo. Só os brasileiros tiveram 630 mortos e 2.938 feridos.

Curuzu e o encontro de Yataytí Corá

Em 28 de agosto de 1866, um conselho de guerra aliado decidiu mudar de direção. Em vez de atacar pelo centro, a esquadra brasileira subiria o rio Paraguai com tropas a bordo. O alvo era Curuzu, uma bateria paraguaia na margem do rio, ao sul de Curupaiti e de Humaitá.

Em 1º de setembro, cinco encouraçados brasileiros começaram a bombardear Curuzu. No dia seguinte, o encouraçado Rio de Janeiro bateu em duas minas e afundou quase na hora. Morreram o comandante, Américo Brasílio Silvado, e cerca de 50 marinheiros. Foi o único encouraçado afundado na guerra. No dia 3, cerca de 8.400 homens do 2º Corpo brasileiro, do Visconde de Porto Alegre, tomaram a posição. Os defensores, cerca de 2.800 segundo a Wikipédia em português, recuaram até Curupaiti.

Antes do passo seguinte, López pediu uma reunião. Em 12 de setembro, ele e Mitre conversaram por cerca de cinco horas em Yataytí Corá. Flores saiu logo no início, depois de discutir com López. O general brasileiro Polidoro Jordão recusou o convite, porque o governo imperial proibia negociar com o chefe de Estado paraguaio. Segundo Bethell, López ofereceu concessões, inclusive territoriais, desde que continuasse no poder e o Paraguai não fosse dividido nem ocupado. Mitre ouviu e disse que a decisão cabia aos governos aliados. O Tratado da Tríplice Aliança exigia a saída de López. A guerra continuou.

Curupaiti, 22 de setembro de 1866

Curupaiti era uma posição fortificada na barranca do rio Paraguai, poucos quilômetros ao sul de Humaitá. Depois da queda de Curuzu, os paraguaios a reforçaram às pressas. O engenheiro era George Thompson, e o comandante, o general José Eduvigis Díaz. A Wikipédia em inglês fala em 5.000 defensores e 49 canhões, alguns escondidos da vista dos atacantes. A Wikipédia em português dá de 4.000 a 5.000 soldados e cerca de 90 canhões, apontados para o rio e para a terra.

O ataque estava marcado para 16 de setembro. Choveu sem parar por dias e o acampamento virou lama. A data passou para o dia 22.

Às 7h do dia 22, a esquadra do almirante Tamandaré começou a bombardear a posição. O bombardeio foi até o meio-dia. Os navios atiravam de longe e de baixo para cima, contra uma barranca alta. Segundo a Wikipédia em inglês, foram disparadas cerca de 5.000 bombas e granadas, e só um canhão paraguaio ficou danificado. Mitre viu o fim do bombardeio e concluiu que as defesas estavam destruídas. Mandou o ataque por terra.

Cerca de 20 mil soldados avançaram. Os argentinos iam pela direita, em duas colunas, sob os generais Emilio Mitre e Wenceslao Paunero. Os brasileiros iam pela esquerda e pelo centro. O terreno era plano, encharcado e coberto de mato. Os brasileiros passaram a primeira trincheira e encontraram uma segunda, que não esperavam. Díaz mandou atirar metralha e lanternetas contra as colunas, que avançavam em formação cerrada, devagar, no barro. Segundo a Wikipédia em inglês, só uns 60 homens chegaram ao pé do parapeito, e todos foram mortos. Às 14h, o ataque foi abandonado.

Pintura panorâmica de uma trincheira paraguaia em zigue-zague, com soldados atirando de trás do parapeito, explosões no céu, árvores secas e uma bandeira do Paraguai à direita

Figura 2. "Trinchera de Curupaytí", óleo de Cándido López, 1893. A pintura mostra a trincheira paraguaia vista por dentro, com as explosões das granadas aliadas acima. Imagem: Google Art Project, Wikimedia Commons, domínio público.

Os números de mortos também divergem aqui. Os dados oficiais brasileiros e argentinos, citados pela Wikipédia em português, dão 2.011 baixas brasileiras, das quais 411 mortos, e 1.357 argentinas, das quais 587 mortos. O total oficial é de 3.368. O coronel brasileiro Cláudio Moreira Bento fala em 4.000 baixas só entre os brasileiros. Thompson escreveu que os paraguaios perderam 54 homens e os aliados, 9.000. A Wikipédia em inglês estima cerca de 20% da tropa aliada fora de combate, contra menos de 100 baixas paraguaias. Bethell chama Curupaiti de a pior derrota aliada da guerra.

Díaz quis perseguir os aliados em fuga, mas López proibiu. Segundo a Wikipédia em português, os paraguaios recolheram 3.000 fuzis no campo.

As consequências de Curupaiti

A derrota parou a ofensiva aliada por dez meses, até julho de 1867. Ela também abriu brigas no alto comando. Porto Alegre culpou Mitre. Os generais brasileiros brigavam entre si. Tamandaré, Polidoro e Flores deixaram seus postos. Flores voltou para o Uruguai, que a partir daí, segundo Thomas Whigham, mandou só uma força simbólica para a frente.

Na Argentina, a guerra ficou ainda menos popular. Em novembro de 1866, Felipe Varela comandou uma revolta contra a guerra na região de Cuyo. Mitre precisou mandar um exército de 4.000 homens para o interior do país. No Paraguai, a vitória deu fôlego a López. A imprensa oficial passou a celebrá-lo, e até opositores foram perdoados.

O governo imperial reagiu com uma nomeação. Em 10 de outubro de 1866, um decreto pôs o marquês de Caxias no comando das forças brasileiras. Ele tinha 63 anos e era o militar mais prestigiado do Império. Tinha comandado a repressão à Balaiada e o fim da Farroupilha. Também era senador e político do Partido Conservador, enquanto o gabinete no poder, chefiado por Zacarias de Góis e Vasconcelos, era liberal.

Retrato em litografia de um homem de meia-idade, cabelo ondulado e bigode, com farda de gala bordada, dragonas e uma condecoração em forma de estrela no peito

Figura 3. Luís Alves de Lima e Silva, então marquês de Caxias, em litografia de Sébastien Auguste Sisson, 1861. Imagem: Wikimedia Commons, domínio público.

A reforma de Caxias

Caxias saiu do Rio de Janeiro em 29 de outubro de 1866, a bordo do vapor Arinos. Passou por Montevidéu, Buenos Aires, Rosário e Corrientes e chegou a Tuiuti em 18 de novembro. O decreto não lhe dava o comando da Marinha, mas, na prática, a esquadra passou a obedecer a ele. Até ali, Exército e Marinha operavam cada um por conta própria.

O que ele encontrou foi um exército doente. Segundo Doratioto, citado na Wikipédia em inglês, um terço da força brasileira que tinha cruzado o Paraná estava doente ou ferida. Os brasileiros tinham 11 hospitais na região, quatro deles em território paraguaio, e todos estavam lotados. O 1º e o 2º Corpos de Exército tinham administração, contabilidade, pagamento e critérios de promoção próprios. Caxias disse depois que eles pareciam pertencer a duas nações diferentes.

A pior doença era o cólera. A epidemia ficou tão séria que os comandantes aliados proibiram a palavra "cólera" nos documentos oficiais. Em março de 1867, a doença chegou a Buenos Aires e Montevidéu. Em 2 de janeiro de 1868, matou o vice-presidente argentino, Marcos Paz. Em maio de 1867, o cólera também chegou ao acampamento paraguaio.

Caxias pôs uma comissão médica para inspecionar os hospitais. O chefe era Francisco Pinheiro Guimarães, médico e coronel de Voluntários da Pátria. Guimarães isolou os doentes de cólera e impôs regras rígidas de higiene. Caxias criou também uma inspetoria de polícia do acampamento, que vigiava a limpeza, a ordem e o cumprimento das normas.

A reforma também chegou ao armamento. Caxias convenceu o governo a comprar nos Estados Unidos 5.000 fuzis Roberts, de carregar pela culatra, e 2.000 carabinas de repetição Spencer. No Rio Grande do Sul, criou o 3º Corpo de Exército, que Osório trouxe com cerca de 20 mil homens.

Ele também tentou ver o terreno de cima. Por iniciativa de D. Pedro II e do ministro da Guerra, o governo contratou os irmãos Allen, balonistas americanos que tinham servido na Guerra Civil dos Estados Unidos. As primeiras subidas foram em junho e julho de 1867. Numa delas, o balão ficou duas horas no ar, a cerca de 120 metros. Ao todo foram umas 20 subidas.

Vista a voo de pássaro, em gravura, de uma planície cortada por um rio sinuoso com o nome Rio Paraguay, com acampamentos e fortificações espalhados e um balão no céu, à direita

Figura 4. "Vista geral do theatro da guerra feita a voo de pássaro pelo aeronauta americano o Sr. James Allen", publicada pela revista A Vida Fluminense, Rio de Janeiro, 1868. A vista cobre o antigo acampamento aliado e as fortificações de Curuzu, Curupaiti, Humaitá e Timbó. Acervo da Biblioteca Nacional. Imagem: Wikimedia Commons, domínio público.

A reforma levou 14 meses. Em agosto de 1868, o viajante inglês Richard Burton visitou um acampamento brasileiro perto de Humaitá. Achou-o limpo e viu os soldados bem abrigados, vestidos e alimentados. Bethell escreve que a guerra criou, pela primeira vez no Brasil, um exército moderno e profissional, montado por Caxias para ganhar a guerra depois de Curupaiti.

Humaitá, a porta do Paraguai

A fortaleza de Humaitá ficava numa curva fechada do rio Paraguai, poucos quilômetros acima da foz. Os navios eram obrigados a passar devagar, bem na frente dos canhões. Uma corrente grossa, apoiada em pontões, atravessava o rio. Bethell a chama de "a Sebastopol do Paraguai", e a Wikipédia em inglês registra o apelido de "Gibraltar da América do Sul". No auge, segundo a mesma página, a instalação tinha cerca de 20 mil soldados.

Para o Brasil, Humaitá fechava o caminho mais prático até Mato Grosso, ainda ocupado em parte pelos paraguaios. Para os aliados, fechava o caminho até Assunção.

O plano para tomá-la foi proposto por Mitre e aceito por Caxias. Em vez de atacar de frente outra vez, o exército faria uma longa marcha pelo lado de terra, longe das defesas, e voltaria ao rio mais ao norte. Isso cortaria a fortaleza por terra. Ao mesmo tempo, os encouraçados forçariam a passagem pelo rio para cortar o abastecimento por água.

Em 9 de fevereiro de 1867, Mitre voltou à Argentina para enfrentar a revolta no interior e deixou Caxias no comando provisório. Retornou em julho. Em 22 de julho de 1867, a marcha começou. Segundo a Wikipédia em inglês, 38.500 homens seguiram para Tuiu-Cuê, e 13 mil ficaram em Tuiuti com Porto Alegre. Tuiu-Cuê foi o quartel-general aliado durante quase todo o cerco.

Em 15 de agosto de 1867, dez encouraçados brasileiros passaram pelos canhões de Curupaiti. Morreram três marinheiros e 22 ficaram feridos. Bethell dá a data de 18 de agosto. Os navios pararam entre Curupaiti e Humaitá e ficaram ali por meses. Nesse tempo, afundaram a tiros os pontões que seguravam a corrente, e ela foi para o fundo do rio.

Em 2 de novembro, os aliados chegaram ao rio em Taí, acima de Humaitá, e cortaram a fortaleza por terra. Esticaram correntes no rio e instalaram uma bateria. Restou aos paraguaios uma estrada aberta às pressas pelo Chaco, na outra margem.

No dia seguinte, 3 de novembro de 1867, López tentou desfazer o cerco. Cerca de 9.000 paraguaios, sob o general Vicente Barrios, atacaram de madrugada o acampamento de Tuiuti, que tinha ficado com menos gente. Tomaram as primeiras trincheiras e começaram a saquear o depósito. Um reduto com 1.800 homens e 14 canhões, comandado por Porto Alegre, resistiu. Chegou depois uma brigada argentina de cavalaria, com 800 homens. Às 21h, a segunda batalha de Tuiuti tinha acabado. Para Whigham, López perdeu talvez um terço da tropa que mandou e não ganhou quase nada.

A passagem de Humaitá

Em 14 de janeiro de 1868, Mitre deixou o Paraguai pela última vez. A morte do vice-presidente Marcos Paz o obrigou a reassumir a presidência. Caxias passou a comandar sozinho os aliados.

Na madrugada de 19 de fevereiro de 1868, seis navios encouraçados brasileiros passaram por Humaitá. Bethell registra a data de 18 de fevereiro. A corrente já estava no fundo, a passagem foi à noite e houve poucas perdas. A Wikipédia em inglês registra que a notícia teve repercussão no mundo inteiro e ajudou a restaurar o crédito financeiro do Império.

Pintura noturna de navios encouraçados avançando por um rio sob fogo, com o céu escuro, chamas e fumaça alaranjadas iluminando a margem

Figura 5. "Passagem de Humaitá", óleo de Victor Meirelles, 1868-1872. Meirelles é o mesmo pintor do "Combate Naval do Riachuelo", mostrado no episódio 2. Imagem: Wikimedia Commons, domínio público.

Três dos navios, Bahia, Barroso e Rio Grande, subiram até Assunção. Chegaram em 22 de fevereiro e bombardearam a cidade. O estrago foi pequeno, e López já tinha mandado esvaziar a capital no dia 19. Foi a primeira vez que Assunção sofreu um ataque. O governo paraguaio passou para Luque.

Em 2 de março de 1868, López tentou capturar um encouraçado. Cerca de 500 homens, armados de sabres e granadas de mão, saíram à noite em canoas contra o Cabral e o Lima Barros. Mataram os marinheiros que dormiam no convés, mas os outros se trancaram por dentro. Outros encouraçados chegaram e varreram os conveses com metralha.

Na noite de 3 de março, López deixou Humaitá com 12 mil soldados. Atravessou o rio até Timbó, no Chaco, e seguiu rumo ao norte. Os generais Resquín e Barrios foram atrás com mais 10 mil. Nenhum navio aliado vigiava o trecho do rio entre Humaitá e Timbó. Whigham escreve que, se os comandantes navais tivessem deixado um único encouraçado ali, López não teria escapado. O buraco só foi fechado em 22 de março.

A queda de Humaitá

Na fortaleza ficou uma guarnição menor. Em março, os paraguaios abandonaram Curupaiti. Em 12 de julho, o comandante paraguaio, coronel Paulino Alén, tentou se matar com um tiro, depois de recusar propostas de rendição. Foi substituído pelo coronel Francisco Martínez. Ainda restavam cerca de 2.000 defensores.

Em 16 de julho de 1868, Caxias mandou bombardear a fortaleza. Os paraguaios não responderam. Ele concluiu que o lugar estava vazio e mandou o 3º Corpo de Osório atacar. O ataque, chamado de Acayuazá, esbarrou em 46 canhões escondidos. Segundo a Wikipédia em português, os brasileiros tiveram 279 mortos, 754 feridos e 100 prisioneiros. Os paraguaios, 89 mortos e 104 feridos.

A comida acabou. Desde 11 de julho, os paraguaios mandavam gente em canoas para o outro lado do rio. Na noite de 24 de julho, Martínez começou a evacuação final. No dia 25, aniversário de López, disparou uma salva de 21 tiros e mandou a banda tocar. Com esse barulho, o restante da tropa saiu. Na manhã seguinte, a fortaleza estava vazia, e os aliados entraram. A Wikipédia em inglês dá 26 de julho para a ocupação, e Bethell registra 5 de agosto.

Os fugitivos ficaram presos entre o rio e os aliados, numa área de lagoas do Chaco. Resistiram por cerca de dez dias, com fome. Em 5 de agosto, Martínez se rendeu com 99 oficiais e 1.200 homens. O general argentino Ignacio Rivas permitiu que os oficiais ficassem com suas espadas.

Fotografia antiga do interior de uma igreja destruída, com o telhado aberto, vigas penduradas, um altar ao fundo e um grupo de soldados de pé entre os escombros

Figura 6. Interior da igreja de São Carlos Borromeu, na fortaleza de Humaitá, por volta de 1868, depois do bombardeio naval aliado. Soldados aliados observam o estrago. Fotógrafo não identificado. Imagem: Wikimedia Commons, domínio público.

López tratou os dois coronéis como traidores. Alén foi julgado e fuzilado. A mulher de Martínez, prima de López, foi torturada e fuzilada.

O que custaram esses dois anos

Mitre tinha dito, no começo da guerra, que estaria em Assunção em três meses. Bethell lembra que a guerra durou quase quatro anos.

Os aliados lutavam longe de casa, contra trincheiras com artilharia, num terreno alagado e sem mapas. Bethell inclui sarampo, varíola, febre amarela e cólera entre as grandes causas de morte da guerra.

Os números do lado aliado mostram para onde ia o peso. Segundo Bethell, o Brasil ampliou o Exército para 60 mil a 70 mil homens já no primeiro ano. No total, mobilizou de 130 mil a 150 mil durante a guerra. A Argentina reduziu sua participação depois que os paraguaios saíram de Corrientes. No fim da guerra, tinha cerca de 4.000 soldados no Paraguai.

A política também mudou. Em junho de 1868, Domingo Faustino Sarmiento ganhou a eleição presidencial na Argentina com uma campanha contra a guerra. Em 16 de julho de 1868, dez dias antes da queda de Humaitá, D. Pedro II derrubou o gabinete liberal de Zacarias e chamou os conservadores, com o visconde de Itaboraí. Segundo Bethell, a queda de Zacarias foi o ponto final do conflito entre o primeiro-ministro liberal e Caxias, líder conservador, que dominou os anos do meio da guerra. Foi a primeira vez que o Brasil discutiu o controle civil sobre os militares.

O que vem no episódio 4

O próximo episódio cobre a fase final da guerra. Vai da campanha de dezembro de 1868, a Dezembrada, com Itororó, Avaí e Lomas Valentinas, até a ocupação de Assunção em janeiro de 1869. Depois vêm a campanha da Cordilheira e a morte de Francisco Solano López em Cerro Corá, em 1º de março de 1870.

Leia também: Guerra do Paraguai, episódio 1: antecedentes e historiografia e Guerra do Paraguai, episódio 2: invasões e Riachuelo.


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Para saber mais

Livros:

  • Livro: Maldita guerra: nova história da Guerra do Paraguai, de Francisco Doratioto. Companhia das Letras, 2002. Nova edição em 2022, ISBN 978-6559212866.
  • Livro: The Road to Armageddon: Paraguay versus the Triple Alliance, 1866-70, de Thomas L. Whigham. University of Calgary Press, 2017, ISBN 978-1552388099. É o segundo volume da obra de Whigham e cobre exatamente o período deste episódio. A editora oferece o livro em acesso aberto.
  • Livro: The Paraguayan War: Causes and Early Conduct, de Thomas L. Whigham. 2ª edição, University of Calgary Press, 2018. É o primeiro volume.
  • Livro: The War in Paraguay, de George Thompson. Longmans, Green & Co., Londres, 1869. É o relato do engenheiro inglês que projetou as trincheiras de Curupaiti.

Artigos e páginas:

Imagens:

  • Figura 1: "Episodio de la 2da División Buenos Aires en la batalla de Tuyutí", Cándido López, 1876-1885, Wikimedia Commons, domínio público.
  • Figura 2: "Trinchera de Curupaytí", Cándido López, 1893, Google Art Project, Wikimedia Commons, domínio público.
  • Figura 3: marquês de Caxias, litografia de Sébastien Auguste Sisson, 1861, Wikimedia Commons, domínio público.
  • Figura 4: "Vista geral do theatro da guerra", James Allen, A Vida Fluminense, 1868, Wikimedia Commons, domínio público.
  • Figura 5: "Passagem de Humaitá", Victor Meirelles, 1868-1872, Wikimedia Commons, domínio público.
  • Figura 6: interior da igreja de Humaitá, fotógrafo não identificado, c. 1868, Wikimedia Commons, domínio público.