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Utnapishtim e Noé: o dilúvio em Gilgamesh e em Gênesis
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- Michel Fernandes
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Figura 1. A tábua XI do Épico de Gilgamesh, que contém a história do dilúvio. Museu Britânico, registro K.3375, vinda de Kouyunjik (Nínive), século VII a.C. Foto: BabelStone, Wikimedia Commons, CC0.
Neste post, comparo Utnapishtim, o sobrevivente do dilúvio na tábua XI do Épico de Gilgamesh, e Noé, o protagonista de Gênesis 6 a 9. O texto cobre a redescoberta da tábua em Londres, em 1872, o conteúdo da tábua XI, as versões mesopotâmicas mais antigas, o relato bíblico, uma tabela com 15 pontos de comparação, as diferenças teológicas, as explicações para a semelhança e o que a arqueologia e a geologia permitem afirmar.
A tábua da Figura 1 mede cerca de 15 por 13 centímetros. A versão mais antiga conhecida da mesma história, em sumério, está numa tábua de cerca de 1650 a.C., ou seja, de uns 3.700 anos atrás.
Os textos mesopotâmicos falam em barco, e não em arca. "Arca" é palavra bíblica e aparece em algumas traduções do épico por escolha do tradutor. R. Campbell Thompson, por exemplo, usa "Ark" duas vezes na tradução inglesa de 1928, mas escreve "vessel" na maior parte do texto. Por isso, este post usa "barco" para Utnapishtim e "arca" para Noé. As citações do épico são traduções livres e curtas do inglês de Thompson, em domínio público. Os resumos modernos seguem a tradução de Andrew George, como a Wikipédia em inglês a descreve. Para Gênesis, o texto parafraseia a King James Version.
Gilgamesh, o rei e o poema
Gilgamesh foi, provavelmente, rei de Uruk, cidade do sul do atual Iraque, por volta de 2700 a.C. O National Center for Science Education (NCSE), apoiado em Max Mallowan, fala em 2700 a 2600 a.C. Não existem datas precisas. Artefatos associados a Enmebaragesi e a Aga, reis de Kish citados nas histórias, deram crédito à existência histórica do rei.
Uruk tinha uma muralha de tijolos de 12 a 15 metros de altura e cerca de 9 km de extensão, que no poema é obra de Gilgamesh. A Figura 2 mostra a posição da cidade e de outras que aparecem neste post.

Figura 2. Principais cidades da Baixa Mesopotâmia no período da Terceira Dinastia de Ur (cerca de 2100 a 2000 a.C.), com o curso aproximado dos rios e a antiga linha da costa do golfo Pérsico. Mapa: Sémhur e Zunkir, a partir de Near_East_topographic_map-blank.svg, Wikimedia Commons, CC BY-SA 3.0.
Existem cinco poemas sumérios sobre Gilgamesh, nos quais Enkidu é servo do rei. As versões em acádico, a língua semítica da Babilônia, começam no século XVIII a.C. A versão padrão, com 12 tábuas, foi editada por Sîn-lēqi-unninni, que teria vivido entre 1300 e 1000 a.C. Cerca de dois terços dela foram recuperados, em cópias de Nínive do século VII a.C.
Na versão padrão, Gilgamesh oprime Uruk, e os deuses criam Enkidu, um homem igual a ele em força. Depois de lutar, os dois se tornam amigos e matam o guardião Humbaba e o Touro do Céu. Enkidu morre por decisão dos deuses. Com medo da própria morte, Gilgamesh atravessa o deserto e as águas da morte para procurar Utnapishtim, que recebeu a vida eterna junto com a esposa. A tábua XI conta o encontro.
A redescoberta: de Nínive a George Smith
As escavações britânicas em Kouyunjik, o monte que cobre a antiga Nínive, no norte do Iraque, mandaram milhares de tábuas para Londres. Austen Henry Layard fez a primeira descoberta, no fim de 1849, no palácio de Senaqueribe. Cerca de três anos depois, Hormuzd Rassam, assistente dele, achou uma biblioteca semelhante no palácio de Assurbanipal, rei da Assíria de 668 a 627 a.C. Segundo a Wikipédia, a biblioteca tinha mais de 30 mil tábuas e fragmentos. Não houve registro de onde saiu cada peça, e as tábuas se misturaram depois da chegada à Europa.
A tábua do dilúvio só foi lida em 1872, cerca de 20 anos depois das escavações. Quem a leu foi George Smith, nascido em 26 de março de 1840 numa família operária de Londres. Aos 14 anos, ele entrou como aprendiz de gravador de cédulas e estudou assiriologia por conta própria, nas horas de almoço, no Museu Britânico. Em 1867, ligou um eclipse registrado na tábua K 51 ao eclipse solar de 15 de junho de 763 a.C., data que sustenta a cronologia do Oriente Próximo. Em 1870, virou assistente sênior do departamento de assiriologia.

Figura 3. George Smith (1840 a 1876), em ilustração publicada na Illustrated London News de 10 de abril de 1875. Imagem: Wikimedia Commons, domínio público.
Em 3 de dezembro de 1872, Smith leu para a Sociedade de Arqueologia Bíblica, em Londres, a tradução da tábua que hoje tem o registro K.3375. O texto era uma história de dilúvio muito parecida com a de Gênesis, e o primeiro-ministro William Gladstone estava na plateia. Segundo a Wikipédia, colegas contaram que Smith, ao entender o que lia, começou a tirar a roupa e a correr pela sala. É anedota, e não documento.
Em janeiro de 1873, Edwin Arnold, editor do Daily Telegraph, pagou a viagem de Smith a Nínive para procurar os fragmentos que faltavam. Em 1876, em nova expedição, Smith adoeceu de disenteria perto de Aleppo e morreu em 19 de agosto, aos 36 anos.
Nos primeiros anos, o nome do herói foi lido como "Izdubar", leitura abandonada quando os sinais do nome foram decifrados. A edição crítica de Andrew George, de 2003, em dois volumes, é, segundo uma resenha de Eleanor Robson citada pela Wikipédia, o trabalho crítico mais importante sobre Gilgamesh em 70 anos.
Utnapishtim na tábua XI
Gilgamesh chega à ilha de Utnapishtim, que vive "na foz dos rios", e pergunta como ele entrou na assembleia dos deuses e ganhou a vida eterna. O nome Utnapishtim significa "ele encontrou a vida" em acádico. No texto, ele é "homem de Shuruppak, filho de Ubara-Tutu". Shuruppak era uma cidade antiga na margem do Eufrates.
O aviso de Ea
Os deuses juraram guardar segredo sobre o plano do dilúvio. Ea, deus da água doce e da sabedoria, quebra o juramento por um desvio. Ele fala com uma cabana de junco, e não com o homem: "Cabana de junco, cabana de junco! Parede, parede! Escuta, cabana, presta atenção, parede!" (em tradução livre). Depois manda Utnapishtim derrubar a casa, construir um barco e abandonar os bens para salvar a vida. O barco deve ter largura e comprimento iguais e ser coberto como os barcos do Apsu, o reino subterrâneo das águas doces.
Ea também ensina o que dizer à cidade. Utnapishtim deve afirmar que Enlil o rejeitou e que ele vai viver com Ea no Apsu. A fala permite que a obra comece sem trair o juramento.
O barco
Cinco dias depois de reunir carpinteiros e trabalhadores do junco, Utnapishtim traça as paredes externas. Uma leitura moderna dá 120 côvados de lado ao casco, que seria um cubo, com seis conveses divididos em sete partes e nove compartimentos. Thompson fala em "dez gar". A diferença vem da leitura das medidas, e não do enredo. Segundo a Wikipédia, a linha 57 costuma ser traduzida como "dez varas de altura de cada lado", mas o original diz literalmente "dez dúzias de côvados", sem a palavra acádica para "altura".
Os trabalhadores recebem bois, carneiros, cerveja, óleo e vinho numa festa comparada à do Ano Novo. O lançamento é difícil, e uma pista de varas faz o barco deslizar até a água. Utnapishtim embarca prata e ouro, "todos os viventes" que possuía, parentes, artesãos e "todos os animais do campo". Shamash anuncia a hora, e Utnapishtim entrega o barco ao timoneiro Puzur-Amurri, que sela a entrada.

Figura 4. Building the Ark (A construção da arca), de James Tissot, guache sobre cartão, cerca de 1896 a 1902, Jewish Museum, Nova York. A pintura mostra a construção da arca bíblica de Gênesis, e não o barco de Utnapishtim. Serve aqui só como ilustração de um grande casco de madeira em obra, com carpinteiros e andaimes. O barco da tábua XI, segundo a leitura moderna, tem casco quadrado de junco e betume, e não de tábuas. Imagem: Wikimedia Commons, domínio público.
A tempestade
Ao amanhecer, uma nuvem negra sobe do horizonte. Adad troveja dentro dela, e Ninurta rompe os diques. Os próprios deuses se assustam e fogem para o céu de Anu, onde se encolhem como cães junto a um muro. Ishtar grita como mulher em trabalho de parto e se arrepende de ter falado mal da humanidade na assembleia.
A tempestade dura seis dias e seis noites, segundo o resumo moderno, ou seis dias e sete noites, segundo outras leituras. No sétimo dia, o vento cessa, e todos os humanos "voltaram ao barro". Utnapishtim abre uma janela no barco, ou uma escotilha, conforme a tradução, sente o ar no rosto, cai de joelhos e chora. Ao olhar o horizonte, vê terra.
O pouso, as aves e o sacrifício
O barco para no monte Nimush, que Thompson lê como Nisir. A identificação com o atual Pir Omar Gudrun, de 2.588 m, perto de Sulaymaniyah, no Curdistão iraquiano, é feita com cautela. O monte segura o barco por seis dias. No sétimo, Utnapishtim solta uma pomba, que volta, e depois uma andorinha, que também volta. Por fim, solta um corvo, que vê as águas baixarem, come e não retorna. Então liberta os animais e sacrifica uma ovelha, derrama uma libação e queima cana, cedro e murta diante de 14 vasos. Os deuses sentem o doce aroma e se juntam "como moscas" sobre o sacrifício.

Figura 5. Noah's Ark on Mount Ararat (A arca de Noé no monte Ararat), de Simon de Myle, óleo sobre madeira, 1570, em coleção particular (vendida pela Sotheby's de Paris em 2011). A pintura mostra a arca bíblica de Gênesis pousada no Ararat, com os animais e as aves saindo, e não o barco de Utnapishtim no monte Nimush. Serve como imagem de comparação para o pouso e a soltura das aves, que na tábua XI inclui a pomba, a andorinha e o corvo. O casco comprido e a cobertura em forma de casa são a imagem clássica da arca, bem diferente do barco quadrado da tábua. Imagem: Wikimedia Commons, domínio público.
A disputa entre os deuses e a imortalidade
Ishtar levanta o colar de lápis-lazúli e jura lembrar daqueles dias. Exclui Enlil da oferenda, porque ele provocou o dilúvio sem pensar. Enlil chega, vê o barco e explode: "Algum mortal escapou? Nenhum homem deveria ter sobrevivido!" (em tradução livre). Ninurta aponta Ea. Ea responde que o castigo foi desproporcional. Segundo Thompson, o argumento é que o pecador deve pagar pelo seu pecado, e não toda a humanidade. Ea nega ter revelado o segredo e diz que apenas mandou um sonho ao sábio.
Enlil sobe ao barco, toma Utnapishtim pela mão e faz a esposa dele se ajoelhar ao lado. Toca a testa dos dois e diz que Utnapishtim era até então só mortal e que, a partir dali, ele e a esposa serão como os deuses. Os dois vão morar longe, na foz dos rios.
O resto da tábua mostra por que esse caso não serve de modelo. Utnapishtim propõe a Gilgamesh ficar acordado por seis dias e sete noites. O rei adormece, e a esposa de Utnapishtim assa um pão por dia para provar quanto tempo ele dormiu. Na despedida, Utnapishtim revela uma planta do fundo do mar que rejuvenesce. No caminho de volta, ao parar para se banhar, Gilgamesh perde a planta para uma serpente, que troca de pele ao fugir. Ele chora e volta a Uruk.
Antes de Gilgamesh: Ziusudra e Atrahasis
A tábua K.3375 é do século VII a.C., mas a história é mais antiga e o herói tem outros nomes. Ziusudra ("vida de dias longos") aparece em sumério, Atrahasis ("extremamente sábio") em acádico antigo e Utnapishtim na versão padrão. O sacerdote babilônico Berossus, do fim do século IV e começo do III a.C., chama o herói de Xisuthros, forma grega de Ziusudra.
A versão suméria está na tábua CBS 10673, do Penn Museum, escavada em Nippur pela Expedição Babilônica de 1896 (Figura 6). A tábua é de cerca de 1650 a.C. e mede 13,3 por 10,2 cm. Sobrou o terço inferior, e a tábua completa teria cerca de 260 linhas. Enki revela ao rei Ziusudra o plano dos deuses de destruir a humanidade. O dilúvio dura sete dias e sete noites, até que o sol volta. Ziusudra sai do barco e faz sacrifícios. Depois que Enki acalma os deuses, An e Enlil dão a ele a vida eterna. A passagem que descrevia o barco se perdeu.

Figura 6. A tábua CBS 10673, em sumério, com a história do dilúvio de Ziusudra, de Nippur, cerca de 1650 a.C., no Penn Museum. Foto: Onceinawhile, a partir de imagem do Penn Museum, Wikimedia Commons, CC BY-SA 4.0. Dados da tábua: Penn Museum.
A versão acádica mais completa é o Atrahasis. A cópia mais antiga com colofão foi feita no reinado de Ammi-Saduqa, entre 1646 e 1626 a.C. (Figura 7). Wilfred Lambert e Alan Millard publicaram textos novos do épico em 1965 e a tradução inglesa em 1969. Smith foi o primeiro a traduzir os fragmentos de Nínive, e o nome do herói só foi corrigido para Atrahasis por Heinrich Zimmern, em 1899.

Figura 7. Tábua do épico de Atrahasis, de cerca de 1635 a.C., provavelmente de Sippar, no Museu Britânico. Foto: SpeakingArch, Wikimedia Commons, CC BY-SA 4.0.
No Atrahasis, o dilúvio tem motivo explícito. Os humanos se multiplicam, e o barulho tira o sono de Enlil. Antes do dilúvio, os deuses tentam conter a população com doença, seca e fome. Enki jurou não falar mais com um humano e, por isso, também fala à parede da cabana. Depois do dilúvio, os deuses fixam limites para a vida e a reprodução humanas.
Jeffrey Tigay, da Universidade da Pensilvânia, sustentou em The Evolution of the Gilgamesh Epic (1982) que o dilúvio da tábua XI se baseia numa versão tardia do Atrahasis. Para ele, o prólogo, o dilúvio e a tábua XII foram acrescentados por um ou mais editores, talvez o próprio Sîn-lēqi-unninni. Frases quase idênticas aparecem nos dois textos, como "Parede, escuta", "cobrirás o barco como o Apsu" e "uma pessoa não via a outra". O editor também tirou linhas sobre a fome e a sede dos deuses durante o dilúvio.
A Lista dos Reis Sumérios, na recensão WB-62, cita Ziusudra como filho de Ubara-Tutu e último rei antes da inundação.
O relato de Gênesis 6 a 9
O relato bíblico começa com a avaliação de Deus sobre a humanidade. A terra estava corrompida e cheia de violência, e o pensamento do coração humano era mau o tempo todo (Gn 6:5 a 13). Deus se arrependeu de ter feito o homem (Gn 6:6). Noé é descrito como justo e íntegro (Gn 6:9). Deus diz que vai destruir toda a carne e manda construir uma arca.
As instruções são precisas (Gn 6:14 a 16). A arca deve ser feita de madeira de gofer, palavra hebraica sem tradução segura, com cômodos, e coberta de piche por dentro e por fora. Deve medir 300 côvados de comprimento, 50 de largura e 30 de altura, ou cerca de 150 por 25 por 15 metros, se o côvado for tomado como 0,5 m. Tem uma janela, uma porta na lateral e três pavimentos. A palavra hebraica traduzida por "arca" é tevah, a mesma do cesto em que Moisés é salvo, segundo a Wikipédia.
Noé entra na arca no ano 600 de sua vida, no 17º dia do segundo mês, com a mulher, os três filhos e as mulheres deles (Gn 7:7 e 11). Os animais entram em pares, um macho e uma fêmea de cada espécie (Gn 6:19 e 20). Outro versículo diz que entram sete pares dos animais limpos e das aves e um par dos não limpos (Gn 7:2 e 3). Essa duplicidade é um dos argumentos para a hipótese de duas fontes entrelaçadas, a sacerdotal e a javista, que a Wikipédia diz ser geralmente aceita, embora alguns estudiosos a questionem. Outra duplicidade aparece na duração, porque a chuva dura 40 dias (Gn 7:12 e 17) e as águas "prevalecem" por 150 dias (Gn 7:24).
A arca pousa no 17º dia do sétimo mês "sobre os montes de Ararat", no plural (Gn 8:4). O texto não indica um pico. Quarenta dias depois de aparecerem os topos das montanhas, Noé solta um corvo, que vai e volta até a terra secar. Solta então uma pomba, que volta por não achar onde pousar. Sete dias depois, solta a pomba de novo, e ela volta com uma folha de oliveira. Sete dias depois, solta a pomba pela terceira vez, e ela não volta (Gn 8:5 a 12). A terra seca no 27º dia do segundo mês do ano 601 (Gn 8:13 e 14). Da entrada à saída, passa pouco mais de um ano.

Figura 8. Noah's Ark, de Edward Hicks, óleo sobre tela de 1846, Philadelphia Museum of Art. A arca da pintura lembra uma casa sobre um casco, e não um barco. Imagem: Wikimedia Commons, domínio público.
Noé constrói um altar e oferece holocaustos de animais e aves limpos. O Senhor sente o aroma agradável e decide nunca mais amaldiçoar a terra por causa do homem nem destruir os seres vivos como fez (Gn 8:20 a 22). Deus abençoa Noé e os filhos, autoriza o consumo de carne, proíbe o sangue e faz uma aliança com Noé, com os descendentes e com todos os seres vivos. O sinal é o arco na nuvem (Gn 9:1 a 17). Noé vive mais 350 anos depois do dilúvio e morre aos 950 (Gn 9:28 e 29).
A Wikipédia registra que Gênesis foi provavelmente composto por volta do século V a.C. e que alguns estudiosos situam a história primeva, que inclui o dilúvio, até o século III a.C. Em ambos os casos, o relato usa tradições bem mais antigas.
Os dois relatos lado a lado
| Ponto | Mesopotâmia (tábua XI, com Atrahasis e Ziusudra) | Gênesis 6 a 9 |
|---|---|---|
| Motivo do dilúvio | Decisão dos deuses, sem justificativa moral na tábua XI. No Atrahasis, o ruído e o excesso de humanos incomodam Enlil | A maldade e a violência humanas (Gn 6:5 a 13) |
| Quem decide | Uma assembleia de deuses, com Enlil à frente | Um só Deus, que também se arrepende (Gn 6:6) |
| Aviso ao herói | Ea fala à parede de uma cabana de junco | Deus fala diretamente a Noé (Gn 6:13) |
| Por que o herói é escolhido | A tábua XI não dá razão moral. Ea diz depois que apenas mandou um sonho | Noé é justo e íntegro (Gn 6:9) |
| Material e forma | Barco de casco quadrado, feito por carpinteiros e trabalhadores do junco, com betume e óleo | Arca de madeira de gofer, com cômodos, piche por dentro e por fora (Gn 6:14) |
| Dimensões | Leitura moderna: 120 côvados de lado, cúbico. Thompson fala em 10 gar | 300 por 50 por 30 côvados, em três pavimentos (Gn 6:15 e 16) |
| Tempo de construção | Estrutura traçada em cinco dias e obra concluída em cerca de uma semana | Não informado |
| Passageiros | Família, parentes, artesãos, "todos os animais do campo" e a semente de todos os viventes, mais prata e ouro | Noé, a mulher, três filhos e as mulheres deles, um par de cada animal e sete pares dos limpos (Gn 7:2 e 7) |
| Duração da tempestade | Cerca de uma semana (seis dias e seis ou sete noites). Em Ziusudra, sete dias e sete noites | 40 dias de chuva e 150 de águas altas (Gn 7:12 e 24) |
| Pouso | Monte Nimush, ou Nisir | Montes de Ararat (Gn 8:4) |
| Aves | Pomba, andorinha e corvo, nessa ordem. O corvo não volta | Corvo, depois pomba três vezes, com sete dias entre as solturas. A pomba traz uma folha de oliveira (Gn 8:6 a 12) |
| Sacrifício | Ovelha, libação e oferenda de cana, cedro e murta no pico | Holocaustos de animais e aves limpos num altar (Gn 8:20) |
| Reação divina ao sacrifício | Os deuses sentem o doce aroma e se juntam como moscas | O Senhor sente o aroma agradável (Gn 8:21) |
| Conflito depois do dilúvio | Ishtar exclui Enlil da oferenda, Enlil se enfurece e Ea o repreende | Deus decide sozinho não repetir o dilúvio (Gn 8:21 e 22) |
| Destino do herói | Vida eterna longe dos humanos, "na foz dos rios". Em Ziusudra, em Dilmun | Continua mortal e morre aos 950 anos. Recebe uma aliança (Gn 9:9 a 17 e 29) |
A sequência dos eventos é a mesma: aviso a um sábio, construção de um barco selado, embarque de família e animais, tempestade, pouso numa montanha, soltura de aves, sacrifício e bênção. Até o aroma do sacrifício agrada aos deuses na tábua XI e ao Senhor em Gênesis. As diferenças aparecem nas medidas, na duração, na ordem das aves e no destino do herói.
A Figura 9 põe as duas embarcações lado a lado, na mesma escala. A arca é comprida e baixa. O barco da tábua XI, na leitura moderna, é um cubo. Em volume de paralelepípedo, são 450.000 côvados cúbicos para a arca e 1.728.000 para o cubo, ou cerca de 3,8 vezes mais. Para a tábua XI, o resultado depende de como se interpretam as unidades e as linhas danificadas.

Figura 9. Dimensões da arca de Noé (Gênesis 6:15) e do barco de Utnapishtim (tábua XI, leitura moderna), em côvados e em metros aproximados, com 1 côvado igual a 0,5 m. Gráfico elaborado para este post com dados de Gênesis 6:15 e da tábua XI, segundo o resumo da Wikipédia em inglês (Gilgamesh flood myth). O volume é o do paralelepípedo, cálculo feito para este post.
Semelhanças e diferenças teológicas
A diferença mais visível é o número de deuses. Na tábua XI, o dilúvio nasce de uma assembleia em que Anu, Enlil, Ninurta, Ennugi e Ea juraram segredo. Ea quebra o juramento por um desvio, Enlil se enfurece com o resultado e os deuses discutem entre si. Durante a tempestade, eles sentem medo. Em Gênesis, há um só Deus, que decide, executa, escolhe Noé e se compromete no fim.
O motivo do castigo também muda. Em Gênesis, o texto explica a decisão pela violência e pela corrupção humanas, e Noé é salvo por ser justo. No Atrahasis, o motivo é o barulho e o crescimento da população. Na tábua XI, o motivo não é detalhado. O poema registra, em vez disso, a crítica de Ea a Enlil, de que o castigo foi desproporcional e de que o pecador deve pagar pelo seu pecado. É um argumento ético dentro do próprio texto mesopotâmico.
É no destino do herói que os textos mais se afastam. Utnapishtim e a esposa recebem a vida eterna e vão viver longe. A Wikipédia nota que o ponto central da tábua XI parece ser a unicidade desse caso, que não se repete. O poema termina com Gilgamesh de volta a Uruk, sem a planta, elogiando as muralhas, e a Wikipédia comenta que a sugestão é de que os mortais podem alcançar a imortalidade por obras duradouras. Noé continua mortal. O que ele recebe é uma aliança, com um sinal visível, o arco, e a promessa de que a água não destruirá de novo toda a vida. A aliança inclui os descendentes e os animais.
Em Gênesis, o dilúvio também se liga à criação. Segundo a Wikipédia, estudiosos leem a abertura das "fontes do grande abismo" e das "janelas do céu" como a volta ao caos aquático anterior à criação. Nessa leitura, o dilúvio desfaz e renova a obra de Deus.

Figura 10. O Dilúvio, de Gustave Doré, frontispício da Bíblia ilustrada por ele, publicada em 1866. Imagem restaurada por Adam Cuerden, Wikimedia Commons, domínio público.
Como explicar a semelhança
Os estudiosos aceitam que os textos têm relação, e a discussão é sobre o tipo de relação. Duas explicações têm autores identificados.
A primeira é o empréstimo, ou seja, a dependência literária de Gênesis em relação a textos mesopotâmicos. Andrew George afirma, segundo a Wikipédia, que a narrativa de Gênesis acompanha a da tábua XI de tão perto que poucos duvidam de que derive de um relato mesopotâmico. Segundo ele, o relato bíblico segue o de Gilgamesh "ponto a ponto e na mesma ordem", mesmo quando a história permitiria alternativas. David MacDonald, no NCSE, chega à mesma conclusão. Para ele, não há corrente de opinião fundamentada que sustente que os textos sejam independentes.
A segunda é a fonte comum. O rabino Robert Wexler escreveu em 2001, num comentário da Torá do movimento conservador do judaísmo, que a hipótese mais provável é a de que Gênesis e Gilgamesh tenham tirado o material de uma tradição comum sobre o dilúvio, existente na Mesopotâmia. As duas histórias teriam divergido ao serem recontadas.
Quanto ao caminho, as fontes consultadas mostram só que o material circulava fora da Mesopotâmia na segunda metade do segundo milênio a.C. Uma tábua de Ugarit, de cerca de 1200 a.C., traz parte da história de Utnapishtim, conforme a tradução de Andrew George de 2007. Outro fragmento de Ugarit, o RS 94.2953, com 14 linhas, foi interpretado por Antoine Cavigneaux como parte de um relato mesopotâmico do dilúvio. Nele, Ea manda o herói fazer uma janela no alto da construção, e o herói solta uma ave numa data lunar indicada, o que, segundo a Wikipédia, o aproxima de Gênesis 8. As fontes consultadas não explicam quando e por que via a história chegou aos autores bíblicos.
O que a arqueologia e a geologia dizem
As escavações dos anos 1920 e 1930 em três cidades do sul da Mesopotâmia acharam camadas de sedimento deixadas por água, e a leitura delas ainda é discutida. O resumo a seguir segue o artigo de David MacDonald no NCSE.
Ur
Leonard Woolley escavava as tumbas reais de Ur quando mandou abrir um poço de teste no solo abaixo delas. Atravessou cerca de 2,4 metros (oito pés) de lama limpa antes de chegar a uma camada com artefatos do fim da pré-história. Segundo Woolley, a mulher dele, Katharine, comentou sem dar importância: "Bem, claro, é o Dilúvio" (em tradução livre, a partir do relato de 1954 que o NCSE reproduz). Num poço grande aberto depois, de 75 por 60 pés e 64 pés de profundidade, ele achou um depósito de solo limpo, aparentemente deixado pela água, de até 11 pés de espessura. Em alguns poços não havia sinal da cheia.
A camada fica entre restos da fase Ubaid e entulho do início do período Protoliterário, e a data é de cerca de 3500 a.C. Woolley foi um dos primeiros a propor que o dilúvio bíblico foi local. Falou numa área de 400 milhas por 100 que, para os moradores do vale, "era o mundo todo", segundo a Wikipédia.

Figura 11. Poço de Woolley, em Ur, em fotografia de 2016. O Wikimedia Commons identifica o local como o poço de Woolley. Foto: David Stanley, Wikimedia Commons, CC BY 2.0.
O NCSE aponta problemas. Eridu, a 7 milhas de Ur, não mostrou sinal da cheia, embora tenha sido procurado com cuidado, e a cheia de Ur nem cobriu todo o monte da cidade. Max Mallowan, principal assistente de Woolley, rejeitou a interpretação. O artigo também questiona se a memória de um evento de 3500 a.C. teria sobrevivido até a época histórica, porque a data é anterior a qualquer registro escrito.
Kish e Shuruppak
Em Kish, S. Langdon e L. Watelin acharam, pouco antes de Woolley, duas cheias por volta de 3000 a 2900 a.C. e uma terceira, maior, por volta de 2600 a.C. A lama tem em média menos de dez polegadas, ou cerca de 25 cm. As três são posteriores à de Ur. Watelin propôs que a mais antiga era o dilúvio da Bíblia e da literatura cuneiforme.
Em Shuruppak, atual Fara, o trabalho de Schmidt, de 1931, registra uma camada de depósitos de cheia com cerca de 15 polegadas, ou uns 38 cm, por volta de 2950 a 2850 a.C. A camada interessa porque Shuruppak é a cidade de Utnapishtim e de Ziusudra. Segundo o NCSE, cálculos de Mallowan e Kramer a partir da Lista dos Reis Sumérios e do tempo médio de reinado põem o dilúvio da tradição entre 2900 e 2800 a.C. A data é tardia demais para Ur e combina com as cheias mais antigas de Kish e com a de Shuruppak.
O que se pode afirmar
Para o NCSE, as camadas são de cheias locais, de datas e espessuras diferentes, que deixaram sobreviventes e continuidade cultural. A suposição de que Kish e Shuruppak registram a mesma cheia é só uma hipótese. A espessura de um depósito isolado não mede a gravidade da inundação. As descrições de Woolley, segundo o artigo, estão longe de ser científicas. Por isso, o NCSE afirma que não há razões para concluir que a história do dilúvio tenha começado num evento identificado em Kish, em Shuruppak ou em outro lugar da Mesopotâmia.
Mallowan rejeitou a ligação com Ur, mas, segundo a Wikipédia, achava que as evidências epigráficas e arqueológicas davam bons motivos para crer que Ziusudra foi um governante pré-histórico de Shuruppak. O NCSE lembra que as cheias do Tigre e do Eufrates eram frequentes no sul da Mesopotâmia, o que pode ter bastado para gerar uma tradição sobre uma inundação suprema. Essa é uma hipótese coerente com os dados, e não uma prova.
O mar Negro
William Ryan, Walter Pitman, Petko Dimitrov e colegas publicaram em 1997 uma hipótese de outro tipo. Segundo eles, uma entrada catastrófica de água do Mediterrâneo no então lago de água doce do mar Negro ocorreu por volta de 5600 a.C. Em 2003, Ryan e coautores revisaram a data para cerca de 8.800 anos atrás, ou 6800 a.C. A hipótese prevê 100.000 km² de terra inundados e 50 km³ de água por dia passando pelo Bósforo, durante pelo menos 300 dias. O New York Times noticiou a tese em dezembro de 1996, e Ryan e Pitman publicaram o livro Noah's Flood em 1998.
A hipótese é controversa. Alguns autores defendem que o nível do mar Negro subiu em ritmo moderado ou que os estreitos já estavam abertos, o que eliminaria a catástrofe. Outros apontam a falta de evidência arqueológica de um grande impacto. Andrei Chepalyga propôs, em 2003 e 2007, um "Grande Dilúvio do Pleistoceno Tardio", por transbordamento do mar Cáspio há 17.000 a 14.000 anos. Outro grupo defende uma inundação gradual.
A ligação com Gilgamesh é especulação. O evento proposto é de 2.700 a 3.900 anos anterior às camadas de Shuruppak, conforme a data adotada, conta feita para este post. A Wikipédia diz apenas que o evento possivelmente foi a base de uma tradição oral sobre o dilúvio de Noé.
O estado atual do debate
Alguns pontos têm consenso. Não há evidência geológica de um dilúvio global simultâneo, e a Wikipédia afirma que um dilúvio global como o de Gênesis é incompatível com os achados da geologia, da arqueologia, da paleontologia e da distribuição das espécies. Há camadas de inundação local na Mesopotâmia, de datas diferentes. A maioria dos estudiosos aceita a relação literária entre Gênesis e o épico, e a discussão fica na forma dessa relação.
Outros pontos seguem abertos. Não se sabe se existiu um evento histórico único por trás da tradição, nem qual seria. A hipótese do mar Negro e as camadas de Ur, Kish e Shuruppak são candidatas rivais, e nenhuma foi demonstrada. Segundo a Wikipédia, ninguém tentou procurar os restos do barco no monte Nisir, ao contrário do que ocorre com a arca no Ararat. Sobre a busca no Ararat, há outro post neste blog sobre documentários da arca de Noé.
Quanto às traduções, Stephen Mitchell publicou em 2004 uma versão poética, que ficou em segundo lugar no primeiro Quill Award de poesia. Segundo o crítico James Fenton, no Guardian, Mitchell não lê acádico e partiu de traduções literais de especialistas. Fenton considerou a tradução de George, da Penguin Classics, a melhor das três que comparou, com as de Dalley e de Mitchell.
Em números
A tábua XI traz 120 côvados de casco, cerca de uma semana de tempestade e três aves. Gênesis dá 300 por 50 por 30 côvados, 40 dias de chuva, 150 de águas altas, pouco mais de um ano no total e quatro solturas de aves. A tábua K.3375 é do século VII a.C., a de Ziusudra é de cerca de 1650 a.C. e as camadas de lodo de Shuruppak são de cerca de 2900 a.C. Nenhum desses dados prova um dilúvio histórico único.
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Leia também: Arca de Noé em dois documentários: Ararat e Durupınar.
Para saber mais
Livros:
- Livro: The Epic of Gilgamesh, tradução de Andrew George. Penguin Classics, 1999, revista em 2003. ISBN-10 0140449191.
- Livro: Gilgamesh: A New English Version, de Stephen Mitchell. Free Press, 2004. Edição em brochura da Washington Square Press, 2006.
- Livro: Noah's Flood: The New Scientific Discoveries About the Event That Changed History, de William Ryan e Walter Pitman. Simon & Schuster, 1998. A edição em brochura é de 2000.
- Livro: Andrew George, The Babylonian Gilgamesh Epic: Introduction, Critical Edition and Cuneiform Texts. Oxford University Press, 2003, 2 volumes, ISBN 0-19-814922-0.
- Livro: Jeffrey H. Tigay, The Evolution of the Gilgamesh Epic. University of Pennsylvania Press, 1982.
- Livro: W. G. Lambert e A. R. Millard, Atra-hasis: The Babylonian Story of the Flood. Oxford, 1969. Reimpressão pela Eisenbrauns, 1999.
- Livro: Alexander Heidel, The Gilgamesh Epic and Old Testament Parallels. University of Chicago Press, 1946.
Artigos, museus e textos antigos:
- Artigo: David MacDonald, "The Flood: Mesopotamian Archaeological Evidence", National Center for Science Education.
- Artigo: M. E. L. Mallowan, "Noah's Flood Reconsidered", Iraq, vol. 26, nº 2, 1964, pp. 62 a 82.
- Museu: British Museum, "The Flood Tablet", K.3375.
- Museu: Penn Museum, "Flood Tablet / Deluge Tablet, CBS10673".
- Texto antigo: R. Campbell Thompson, The Epic of Gilgamish (1928), Tábua XI, no sacred-texts.com.
- Texto antigo: The Sumerian king list: translation, Electronic Text Corpus of Sumerian Literature (ETCSL), Universidade de Oxford.
- Texto antigo: Gênesis 6 a 9, King James Version.
- Resenha: James Fenton, "Signs of the times", The Guardian, 6 nov. 2004.
- Notícia: John Noble Wilford, "Geologists Link Black Sea Deluge To Farming's Rise", The New York Times, 17 dez. 1996.
- Wikipédia: Epic of Gilgamesh, Gilgamesh flood myth, Utnapishtim, Atra-Hasis, Ziusudra, Genesis flood narrative, George Smith (Assyriologist), Library of Ashurbanipal, Uruk, Mount Nisir, Leonard Woolley e Black Sea deluge hypothesis.
Imagens:
- Figura 1, tábua XI (K.3375): BabelStone, Wikimedia Commons, CC0.
- Figura 2, mapa da Baixa Mesopotâmia: Sémhur e Zunkir, Wikimedia Commons, CC BY-SA 3.0.
- Figura 3, George Smith: Illustrated London News, 10 abr. 1875, Wikimedia Commons, domínio público.
- Figura 4, Building the Ark: James Tissot, cerca de 1896 a 1902, Jewish Museum (Nova York), Wikimedia Commons, domínio público.
- Figura 5, Noah's Ark on Mount Ararat: Simon de Myle, 1570, coleção particular, Wikimedia Commons, domínio público.
- Figura 6, tábua CBS 10673: Onceinawhile, Wikimedia Commons, CC BY-SA 4.0.
- Figura 7, tábua do Atrahasis: SpeakingArch, Wikimedia Commons, CC BY-SA 4.0.
- Figura 8, Noah's Ark: Edward Hicks, 1846, Philadelphia Museum of Art, Wikimedia Commons, domínio público.
- Figura 9, dimensões das embarcações: gráfico elaborado para este post com dados de Gênesis 6:15 e da tábua XI.
- Figura 10, O Dilúvio: Gustave Doré, 1866, restauração de Adam Cuerden, Wikimedia Commons, domínio público.
- Figura 11, poço de Woolley em Ur: David Stanley, Wikimedia Commons, CC BY 2.0.