Published on

Bom samaritano: quem eram os samaritanos dos Evangelhos

Authors

Neste post, o assunto é o bom samaritano e o povo que deu nome a ele. O texto conta de onde vieram os samaritanos, por que judeus e samaritanos se evitavam no tempo de Jesus e quem são os cerca de 900 samaritanos que vivem hoje em Israel e na Cisjordânia. Depois vem a parábola de Lucas 10:25-37, lida verso a verso, os outros trechos dos Evangelhos em que aparecem samaritanos, três leituras famosas da história e o uso moderno da expressão nas leis de vários países.

Pintura em cores fortes de um homem que ergue um ferido sem roupa para cima de um cavalo, numa estrada de montanha, enquanto ao fundo duas figuras se afastam

Figura 1. O bom samaritano (segundo Delacroix), de Vincent van Gogh, óleo sobre tela, maio de 1890, Museu Kröller-Müller, Otterlo (Holanda). Imagem: Wikimedia Commons, domínio público.

A expressão "bom samaritano" virou sinônimo de pessoa caridosa. Nomeia hospitais, leis e campanhas. Para quem ouviu a parábola pela primeira vez, no século I, a combinação das duas palavras soava estranha. Um samaritano era a última pessoa de quem um judeu esperava ajuda.

As citações bíblicas deste post são traduções livres e curtas, com o capítulo e o versículo indicados.

De onde vieram os samaritanos

Depois da morte do rei Salomão, por volta de 930 a.C., o povo de Israel se dividiu em dois reinos. O do sul, Judá, tinha Jerusalém como capital. O do norte, chamado Israel, acabou tendo como capital a cidade de Samaria. É dessa cidade e da região em volta dela que vem o nome "samaritano".

Em 722 a.C., o Império Assírio tomou Samaria. Os anais do rei Sargão II falam em cerca de 27 mil pessoas deportadas. O livro de 2 Reis conta a história do ponto de vista de Judá. Segundo 2 Reis 17:6, o rei da Assíria levou os israelitas para longe. Segundo 2 Reis 17:24, trouxe no lugar deles gente de Babilônia, Cuta, Ava, Hamate e Sefarvaim. Os versículos 25 a 33 dizem que esses novos moradores adoravam o Deus de Israel junto com os deuses das terras de origem.

Desse relato nasceu o apelido que a tradição judaica usou por séculos para os samaritanos: "cuteus", gente vinda de Cuta. Era uma forma de dizer que eles eram estrangeiros, sem ligação real com Israel.

Os samaritanos contam outra história. Eles se chamam de Shamerim, palavra hebraica para "guardiões", no sentido de guardiões da Lei. Dizem que descendem das tribos de Efraim e de Manassés, e que os sacerdotes descendem de Levi. Para eles, quem se separou foram os judeus, quando o sacerdote Eli levou o santuário para Siló, ainda no tempo dos juízes.

A pesquisa moderna fica no meio. O arqueólogo Eric Cline estima que os assírios deportaram de 10% a 20% da população do norte. A maioria ficou. Os estudiosos hoje descrevem uma separação lenta entre os dois grupos, que levou séculos e só se completou no período helenístico.

Mapa antigo da Palestina no tempo de Jesus com as regiões da Galileia ao norte, Samaria no centro e Judeia ao sul, coloridas de forma diferente, e o rio Jordão a leste

Figura 2. A Palestina no tempo de Jesus, de 4 a.C. a 30 d.C. A Samaria fica entre a Galileia, ao norte, e a Judeia, ao sul. Mapa de Charles Foster Kent, 1912, Library of Congress. Imagem: Wikimedia Commons, domínio público.

O monte Gerizim e o templo destruído

A diferença central entre judeus e samaritanos está num lugar. Para os judeus, o único lugar legítimo para o templo era Jerusalém. Para os samaritanos, era o monte Gerizim, ao lado da antiga Siquém, hoje Nablus.

O arqueólogo israelense Yitzhak Magen escavou o topo do Gerizim durante mais de 20 anos. Ele encontrou um recinto sagrado do período persa, do século V a.C., que depois deu lugar a um templo maior. Em 2 Macabeus 6:2, o rei selêucida Antíoco IV, no século II a.C., manda dedicar o templo do Gerizim a Zeus, o mesmo tipo de profanação que impôs ao templo de Jerusalém.

O golpe final veio de um governante judeu. João Hircano, da dinastia dos asmoneus, destruiu o templo do Gerizim. Flávio Josefo narra o episódio em Antiguidades Judaicas 13.254-256. Durante muito tempo, a data aceita foi 128 a.C. As moedas e a cerâmica das escavações apontam para cerca de 110 a.C. Para os samaritanos, a destruição do seu templo por um rei de Jerusalém virou uma ferida aberta.

Gravura do século XIX com as ruínas de uma construção de pedra com cúpula no alto de uma montanha, um pastor com ovelhas em primeiro plano e montanhas ao fundo

Figura 3. Ruínas no topo do monte Gerizim, no local do templo samaritano. Gravura do livro Picturesque Palestine, Sinai and Egypt, editado pelo coronel Charles Wilson, 1881. Digitalização da New York Public Library. Imagem: Wikimedia Commons, domínio público.

O Pentateuco samaritano

Os samaritanos aceitam como Escritura só os cinco primeiros livros da Bíblia, o Pentateuco. Os livros dos profetas, os Salmos e os demais textos da Bíblia hebraica ficam de fora.

A versão samaritana do Pentateuco tem cerca de 6 mil diferenças em relação ao texto massorético, o texto padrão da Bíblia hebraica. A maior parte é de ortografia. Algumas mexem no centro da disputa. No texto samaritano, os Dez Mandamentos ganham um mandamento sobre construir um altar no monte Gerizim. Em Deuteronômio 12:5 e em outros versículos, o texto massorético fala do lugar que Deus "escolherá". O samaritano diz o lugar que Deus "escolheu". Assim, o lugar já estava definido, e era o Gerizim, citado pelo nome em Deuteronômio 11:29 e 27:12.

O texto é escrito no alfabeto samaritano, que deriva do hebraico antigo, usado antes de os judeus adotarem a escrita quadrada de origem aramaica. A comunidade guarda um rolo que a tradição atribui a Abisha, bisneto de Aarão, o irmão de Moisés.

Fotografia em preto e branco de um rolo de pergaminho antigo e gasto, com colunas de texto em escrita samaritana

Figura 4. Detalhe do rolo mais antigo dos samaritanos de Nablus. Foto do departamento de fotografia da American Colony de Jerusalém, entre cerca de 1900 e 1920, Library of Congress. Imagem: Wikimedia Commons, domínio público.

Judeus e samaritanos no século I

No tempo de Jesus, a rivalidade era antiga e tinha episódios recentes. O Evangelho de João resume a situação numa frase: "os judeus não se dão com os samaritanos" (João 4:9).

Josefo registra dois casos. Em Antiguidades Judaicas 18.29-30, ele conta que, sob o governador romano Copônio, entre 6 e 9 d.C., samaritanos entraram escondidos no Templo de Jerusalém durante a Páscoa e espalharam ossos humanos pelos pórticos. Ossos tornavam o lugar impuro. Em Guerra dos Judeus 2.232-246, ele conta que, por volta de 52 d.C., no governo de Cumano, um peregrino galileu que ia a Jerusalém foi morto numa aldeia samaritana. Seguiram-se ataques de judeus contra aldeias samaritanas e uma repressão romana.

Os peregrinos da Galileia que iam a Jerusalém tinham duas opções. Podiam cortar a Samaria, caminho mais curto, ou descer pelo vale do Jordão, caminho mais longo, para evitar a região. Nos Evangelhos, "samaritano" chega a funcionar como insulto. Em João 8:48, os adversários de Jesus dizem a ele: "Não dizemos com razão que és samaritano e tens demônio?"

O teólogo alemão Joachim Jeremias escreveu que, na prática, os samaritanos do século I eram tratados no mesmo nível dos gentios, os não judeus.

A comunidade samaritana hoje

Os samaritanos ainda existem. Segundo a publicação comunitária The Samaritan Update, de março de 2024, eles eram cerca de 900. A AFP, em reportagem de abril de 2025, falou em 880. A comunidade se divide em duas partes de tamanho parecido. Pelos números de 2024, cerca de 460 viviam em Holon, perto de Tel Aviv, e falavam hebraico no dia a dia. Outros 380 viviam em Kiryat Luza, no alto do monte Gerizim, na Cisjordânia, e falavam árabe.

O número já foi bem menor. Em 1786 eram cerca de 100. Em 1919, 141. Em 1967, 150. Desde então, a população cresceu: 745 em 2011 e 820 em 2019. O grupo de Holon se formou em 1954, com apoio de Yitzhak Ben-Zvi, então presidente de Israel. Os moradores de Kiryat Luza viviam em Nablus e subiram o monte durante a Primeira Intifada, a partir de 1987. Hoje, todos os samaritanos têm cidadania israelense, e os de Kiryat Luza têm também cidadania palestina.

A comunidade é liderada por um sumo sacerdote. Desde 2013, o cargo é de Aabed-El ben Asher ben Matzliach.

Vista aérea do monte Gerizim, coberto de vegetação rala, com a cidade de Nablus espalhada pelo vale aos pés da montanha

Figura 5. O monte Gerizim sobre a cidade de Nablus, visto do monte Ebal, em julho de 2020. A aldeia samaritana de Kiryat Luza fica no alto do Gerizim. Foto: יאיר דב (Samaria Tourism), Wikimedia Commons, CC BY-SA 4.0.

O principal ritual do ano é a Páscoa no Gerizim. Os samaritanos ainda sacrificam cordeiros, como descreve o capítulo 12 do Êxodo, algo que os judeus deixaram de fazer depois da destruição do Templo de Jerusalém, em 70 d.C.

Grupo de homens samaritanos vestidos de branco, vários com barretes vermelhos, reunidos ao ar livre numa manhã de neblina, enquanto um deles ergue um objeto ritual

Figura 6. Samaritanos na peregrinação da Páscoa no monte Gerizim, em 18 de abril de 2006. Foto: Edward Kaprov (Edkaprov), Wikimedia Commons, CC BY-SA 3.0.

A parábola de Lucas 10:25-37

A parábola só aparece no Evangelho de Lucas. Ela começa com uma conversa. Um intérprete da lei, um especialista nas leis de Moisés, quer "pôr Jesus à prova" e pergunta o que deve fazer para herdar a vida eterna (Lucas 10:25). Jesus devolve a pergunta: o que está escrito na Lei? O homem responde com dois mandamentos. O primeiro é amar a Deus de todo o coração (Deuteronômio 6:5). O segundo é amar o próximo como a si mesmo (Levítico 19:18). Jesus aprova: "Faze isso e viverás" (10:28).

O intérprete, "querendo justificar-se", faz a pergunta que move a história: "E quem é o meu próximo?" (10:29).

A estrada

Jesus responde com uma história. Um homem "descia de Jerusalém para Jericó" (10:30). O detalhe geográfico conta. Segundo o teólogo Arland Hultgren, a estrada tinha cerca de 27 km. Jericó fica abaixo do nível do mar, e a descida desde Jerusalém passa de mil metros, cerca de 1.070 metros. A estrada era cheia de curvas, cortava o meio do deserto da Judeia, e era boa para emboscadas. Ficou conhecida como "caminho de sangue".

Cânion estreito de paredes de rocha clara, com plantas verdes no fundo e céu azul com nuvens no alto

Figura 7. O cânion do wadi Qelt, no deserto da Judeia, que desce da região de Jerusalém até Jericó. Foto: Hardscarf, 20 de novembro de 2017, Wikimedia Commons, CC BY-SA 4.0.

O sacerdote e o levita

Os assaltantes tiram a roupa do homem, batem nele e o deixam "meio morto" (10:30). Por acaso, desce pela mesma estrada um sacerdote. Ele vê o homem e passa pelo outro lado (10:31). Depois passa um levita, um auxiliar do culto no Templo, e faz o mesmo (10:32).

Uma explicação comum é que os dois tinham medo de se contaminar com um cadáver e ficar impedidos de servir no Templo. A estudiosa judia Amy-Jill Levine, professora na Universidade Vanderbilt, rejeita essa leitura. O sacerdote estava descendo de Jerusalém, ou seja, voltando do Templo. Nenhuma regra de pureza proibia um levita de tocar num morto. E, pela lei judaica, salvar uma vida passa na frente de quase todas as outras regras. Enterrar um morto abandonado também era um dever muito alto. Para Levine, a parábola não trata de leis de pureza.

O samaritano

Os ouvintes de Jesus conheciam a sequência sacerdote, levita e israelita, as três divisões do povo no culto. Depois de um sacerdote e de um levita, esperavam um israelita comum como herói. Hultgren e Levine chamam atenção para isso. O terceiro personagem é um samaritano (10:33). No texto grego, a palavra "samaritano" vem no começo do versículo, em posição de destaque.

O samaritano está em viagem, vê o homem e "se enche de compaixão". Ele limpa e enfaixa as feridas com azeite e vinho, os remédios da época. Põe o homem no próprio animal e o leva a uma hospedaria (10:34). No dia seguinte, dá dois denários ao hospedeiro e promete pagar o que faltar quando voltar (10:35). Um denário era o pagamento de um dia de trabalho, segundo Mateus 20:2.

A cena tem um precedente na própria Bíblia hebraica. Em 2 Crônicas 28:8-15, depois de uma guerra entre os dois reinos, homens de Samaria vestem, alimentam e ungem prisioneiros de Judá, põem os mais fracos em jumentos e os levam até Jericó.

Pintura de um homem de turbante que trata as feridas de um homem caído à beira de uma estrada, com um cavalo ao lado, em cores escuras

Figura 8. O bom samaritano, atribuído a Domenico Fetti, óleo sobre madeira, cerca de 1618 a 1622, Metropolitan Museum of Art, Nova York. Imagem: Wikimedia Commons, CC0.

A pergunta invertida

No fim, Jesus faz uma pergunta ao intérprete: "Qual destes três te parece ter sido o próximo do homem que caiu nas mãos dos assaltantes?" (10:36). O intérprete responde: "Aquele que teve misericórdia dele." Ele evita dizer a palavra "samaritano". Jesus fecha a conversa: "Vai e faze tu o mesmo" (10:37).

A pergunta inicial era "quem é o meu próximo?", ou seja, quem merece o meu amor. A pergunta final é "quem agiu como próximo?". O foco sai de quem recebe a ajuda e vai para quem ajuda. Joachim Jeremias, em As Parábolas de Jesus, observa que o intérprete queria um limite. Na época, havia discussão sobre até onde ia a palavra "próximo". Em geral, ela cobria os compatriotas e os convertidos ao judaísmo. Alguns grupos excluíam ainda mais gente. Os essênios de Qumran, por exemplo, mandavam odiar os "filhos das trevas". Segundo Jeremias, Jesus escolheu de propósito um exemplo extremo para mostrar que o amor não tem fronteira.

Levine propõe um exercício para o leitor de hoje. Em vez de se ver no samaritano, a pessoa deve se ver no homem caído, que recebe ajuda justamente de quem ela considera inimigo. Em entrevista ao Religion News Service, em janeiro de 2015, ela disse que os samaritanos do século I não eram um grupo marginalizado. Eram o inimigo.

Os outros samaritanos dos Evangelhos

O Evangelho de Marcos não cita samaritanos. Mateus cita uma vez, Lucas e João contam várias histórias com eles.

Mateus 10:5-6

Ao enviar os doze apóstolos na primeira missão, Jesus diz: "Não entreis em cidade de samaritanos. Ide antes às ovelhas perdidas da casa de Israel." No livro de Atos, a ordem muda. Em Atos 1:8, os apóstolos devem ser testemunhas "em Jerusalém, em toda a Judeia e Samaria". Em Atos 8:5-25, Filipe prega numa cidade da Samaria, e Pedro e João vão até lá.

Lucas 9:51-56

Jesus decide ir a Jerusalém e manda mensageiros a uma aldeia samaritana para preparar a passagem. A aldeia não o recebe, "porque ele ia para Jerusalém" (9:53). Os apóstolos Tiago e João perguntam se devem mandar descer fogo do céu para destruir a aldeia (9:54). Jesus os repreende, e o grupo segue para outra aldeia (9:55-56). O episódio vem um capítulo antes da parábola.

Lucas 17:11-19

A caminho de Jerusalém, entre a Samaria e a Galileia, Jesus encontra dez leprosos. Ele manda que se apresentem aos sacerdotes, e no caminho os dez ficam curados. Só um volta para agradecer, e é samaritano. Jesus pergunta: "Não houve quem voltasse para dar glória a Deus senão este estrangeiro?" (17:18). A palavra grega é allogenēs, a mesma usada na inscrição do Templo de Jerusalém que proibia a entrada de estrangeiros no pátio interno.

João 4

É o encontro mais longo. Jesus para no poço de Jacó, perto da cidade samaritana de Sicar, e pede água a uma mulher (4:5-7). Ela estranha: "Como tu, sendo judeu, me pedes de beber, a mim, que sou mulher samaritana?" (4:9). A conversa chega ao ponto da disputa entre os dois povos. "Nossos pais adoraram neste monte, e vós dizeis que é em Jerusalém o lugar onde se deve adorar" (4:20). O monte é o Gerizim. Jesus responde que virá a hora em que não se adorará "nem neste monte nem em Jerusalém" (4:21), mas diz também que "a salvação vem dos judeus" (4:22). No fim, muitos samaritanos da cidade acreditam nele, e Jesus fica dois dias com eles (4:39-42).

Painel medieval com fundo dourado em que Jesus, sentado junto a um poço, conversa com uma mulher que segura um jarro, com uma cidade murada à direita

Figura 9. Cristo e a samaritana, de Duccio di Buoninsegna, têmpera e ouro sobre madeira, 1310 a 1311, Museu Nacional Thyssen-Bornemisza, Madri. Imagem: Wikimedia Commons, domínio público.

Três leituras da parábola

Agostinho e a alegoria

Por mais de mil anos, a leitura dominante foi alegórica, em que cada detalhe representa outra coisa. A versão mais conhecida é a de Agostinho de Hipona, nas Quaestiones Evangeliorum II.19, do fim do século IV. Orígenes já tinha registrado uma leitura parecida, no século III. Segundo o resumo da pesquisadora Anni Maria Laato, da Universidade Åbo Akademi, o esquema de Agostinho é este:

  • O homem é Adão, e Jerusalém é a cidade celeste da paz.
  • Jericó, que em hebraico lembra a palavra "lua", representa a vida mortal, que nasce, cresce, míngua e morre.
  • Os assaltantes são o diabo e seus anjos, que tiram do homem a imortalidade.
  • O sacerdote e o levita são o sacerdócio e o ministério do Antigo Testamento, incapazes de salvar.
  • O samaritano, nome que Agostinho liga a "guardião", é o próprio Cristo.
  • O azeite é a esperança, e o vinho é o estímulo para agir.
  • O animal é a carne que Cristo assumiu, e a hospedaria é a Igreja.
  • Os dois denários são os dois mandamentos do amor, e o hospedeiro é o Apóstolo, que Laato identifica com Paulo.

Essa leitura aparece também na arte. Nos Evangelhos de Rossano, um manuscrito do século VI, o samaritano é pintado com a auréola de Cristo. No século XVI, João Calvino rejeitou a alegoria e defendeu o sentido literal, de ajuda concreta ao próximo.

Pintura de uma paisagem ampla com árvores, um rio e um céu nublado, com figuras pequenas que levam um ferido até uma hospedaria à direita

Figura 10. Paisagem com o bom samaritano, de Rembrandt, óleo sobre madeira, 1638, Museu Czartoryski, Cracóvia (Polônia). Imagem: Wikimedia Commons, domínio público.

Jeremias e o contexto histórico

Joachim Jeremias publicou Die Gleichnisse Jesu em 1947. O livro saiu no Brasil pela Paulus como As Parábolas de Jesus. Ele trocou a alegoria pela pergunta histórica: o que a parábola queria dizer para quem a ouviu na Palestina do século I? A resposta dele, já resumida acima, é a inversão da pergunta. O intérprete da lei queria saber quem estava dentro do círculo do próximo. Jesus mostra que o próximo é quem age, e que a ação não depende do grupo de quem precisa.

Levine e o ouvinte judeu

Amy-Jill Levine lê a parábola como um ouvinte judeu do século I. No livro Short Stories by Jesus, de 2014, ela critica duas leituras comuns. A primeira transforma o sacerdote e o levita em símbolos de um judaísmo frio e preso a regras. A segunda reduz o samaritano a um "excluído" simpático. Para ela, a força da história está em mostrar o inimigo fazendo o bem. A pergunta que fica para o ouvinte é se ele aceitaria ser salvo por esse inimigo.

O bom samaritano fora da Bíblia

Um sermão e um experimento

Em 3 de abril de 1968, em Memphis, na véspera de ser assassinado, Martin Luther King Jr. fez o discurso "I've Been to the Mountaintop". Ele contou que visitou a estrada de Jerusalém a Jericó e entendeu o medo do sacerdote e do levita. Segundo King, eles perguntaram "se eu parar para ajudar este homem, o que vai acontecer comigo?". O samaritano inverteu a pergunta: "se eu não parar para ajudar este homem, o que vai acontecer com ele?".

Em 1973, os psicólogos John Darley e Daniel Batson, da Universidade de Princeton, testaram a parábola com 40 seminaristas. Cada um tinha de ir a outro prédio para dar uma palestra curta. Alguns iam falar justamente sobre o bom samaritano. No caminho, passavam por um homem caído, gemendo. No total, 16 deles (40%) ofereceram algum tipo de ajuda. O fator decisivo foi a pressa. Entre os que não estavam com pressa, 63% ajudaram. Com pressa média, 45%. Com muita pressa, 10%. O tema da palestra não fez diferença significativa. Alguns seminaristas chegaram a passar por cima do homem.

As leis do bom samaritano

No direito, "bom samaritano" virou nome de dois tipos de lei.

O primeiro tipo protege quem ajuda. A pessoa que socorre alguém numa emergência, de forma voluntária, não responde por danos causados sem querer, salvo em caso de negligência grave. Todos os 50 estados dos Estados Unidos e o Distrito de Columbia têm leis desse tipo, com regras que variam. No Canadá, a província de Ontário aprovou o seu Good Samaritan Act em 2001. Ele protege profissionais de saúde e leigos que prestam primeiros socorros no local de um acidente, sem esperar pagamento.

O segundo tipo obriga a ajudar. O estado americano de Vermont, desde 1968, exige que quem sabe que outra pessoa corre grave perigo físico preste ajuda razoável, se puder fazer isso sem se colocar em perigo. A multa para quem descumpre é de até US$ 100. Em Quebec, o artigo 2 da Carta dos Direitos e Liberdades da Pessoa, de 1975, diz que toda pessoa deve socorrer quem está com a vida em perigo, pessoalmente ou chamando ajuda, salvo se houver risco para ela ou para outra pessoa.

O Brasil segue esse segundo caminho e foi mais longe, no direito penal. O artigo 135 do Código Penal, de 1940, define o crime de omissão de socorro. Comete o crime quem deixa de prestar assistência, "quando possível fazê-lo sem risco pessoal", à criança abandonada ou extraviada, ou à pessoa inválida ou ferida, ao desamparo ou em grave e iminente perigo. Também comete quem, nesses casos, não pede o socorro da autoridade pública. A pena é de detenção de um a seis meses, ou multa. Ela aumenta de metade se a omissão resulta em lesão corporal grave e é triplicada se resulta em morte.

Pela lei brasileira, o sacerdote e o levita da parábola teriam cometido um crime. O samaritano só teria cumprido a lei. A parábola, porém, pede mais do que o artigo 135. O samaritano para, cuida, transporta, paga e promete voltar. Vai além do mínimo que qualquer lei consegue exigir.


Os links da Amazon neste post são de afiliado: se você comprar por eles, recebo uma comissão, sem custo extra para você.

Para saber mais

Livros:

Artigos e textos antigos:

Leis:

Wikipédia: Samaritans, Parable of the Good Samaritan, Samaritan Pentateuch, Mount Gerizim e Good Samaritan law.

Imagens:

  • Figura 1, O bom samaritano: Vincent van Gogh, 1890, Museu Kröller-Müller, Wikimedia Commons, domínio público.
  • Figura 2, mapa da Palestina no tempo de Jesus: Charles Foster Kent, 1912, Library of Congress, Wikimedia Commons, domínio público.
  • Figura 3, ruínas do Gerizim: Picturesque Palestine, Sinai and Egypt, 1881, New York Public Library, Wikimedia Commons, domínio público.
  • Figura 4, Pentateuco samaritano: American Colony de Jerusalém, cerca de 1900 a 1920, Library of Congress, Wikimedia Commons, domínio público.
  • Figura 5, monte Gerizim: יאיר דב (Samaria Tourism), 2020, Wikimedia Commons, CC BY-SA 4.0.
  • Figura 6, Páscoa samaritana: Edward Kaprov, 2006, Wikimedia Commons, CC BY-SA 3.0.
  • Figura 7, wadi Qelt: Hardscarf, 2017, Wikimedia Commons, CC BY-SA 4.0.
  • Figura 8, O bom samaritano: atribuído a Domenico Fetti, cerca de 1618 a 1622, Metropolitan Museum of Art, Wikimedia Commons, CC0.
  • Figura 9, Cristo e a samaritana: Duccio di Buoninsegna, 1310 a 1311, Museu Nacional Thyssen-Bornemisza, Wikimedia Commons, domínio público.
  • Figura 10, Paisagem com o bom samaritano: Rembrandt, 1638, Museu Czartoryski, Wikimedia Commons, domínio público.

Leia também