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Terra à deriva, de Cixin Liu

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Capa de Terra à deriva, de Cixin Liu

Imagem de divulgação: Suma.

O Sol vai passar por um flash de hélio dentro de quatrocentos anos e destruir a Terra. A humanidade decide não abandonar o planeta, e sim levá-lo junto. Doze mil turbinas gigantes, espalhadas pela Ásia e pela América do Norte, primeiro freiam a rotação do planeta e depois o tiram de órbita, rumo a Proxima Centauri. Essa é a premissa de "Terra à deriva", o conto que abre e dá nome à coletânea de Cixin Liu lançada no Brasil pela Suma em junho de 2026, com tradução de Leonardo Alves e 360 páginas. Este post abre uma série sobre livros que li e avaliei no Goodreads.

O livro reúne dez contos: "Terra à deriva", "Montanha", "Sol da China", "Pelo bem da humanidade", "Maldição 5.0", "A microera", "Devoradores", "Deus sob comando", "Com os olhos dela" e "Bala de canhão". A seleção corresponde à da edição em inglês The Wandering Earth, publicada pela Head of Zeus em 2016 e pela Tor em 2017. Os textos saíram originalmente entre 1999 e 2010, a maior parte na revista chinesa Science Fiction World, e cinco deles receberam o Prêmio Galaxy (Yinhe), organizado pela própria Science Fiction World.

Linha do tempo dos dez contos de Terra à deriva

Ano de publicação original de cada conto. Gráfico elaborado para este post com dados da Wikipedia ("The Wandering Earth (collection)").

O autor

Liu Cixin nasceu em Pequim em 1963 e cresceu em Yangquan, na província de Shanxi. Formou-se em 1988 na North China University of Water Resources and Electric Power e trabalhou como engenheiro de computação em uma usina elétrica enquanto escrevia. Ficou conhecido fora da China com O problema dos três corpos, que venceu o Prêmio Hugo de melhor romance em 2015 na tradução de Ken Liu. Foi o primeiro autor asiático a vencer nessa categoria. A obra ganhou adaptações para a TV na China, em 2023, e na Netflix, em 2024. O conto "Terra à deriva" virou filme em 2019, com Liu como produtor executivo.

Cixin Liu na Worldcon 75, em Helsinque, em 2017

Cixin Liu na Worldcon 75, em Helsinque, antes da cerimônia do Hugo, em agosto de 2017. Foto: Henry Söderlund, Wikimedia Commons, CC BY 4.0.

Troféu do Prêmio Hugo de Liu Cixin

Troféu do Hugo de 2015 recebido por Liu, exposto na redação da revista Science Fiction World, em Chengdu. Foto: Kcx36, Wikimedia Commons, CC BY-SA 4.0.

Os contos

Os contos aparecem abaixo na ordem do livro. Títulos originais e datas de primeira publicação seguem a Wikipedia em chinês e a Encyclopedia of Science Fiction. Não é preciso ter lido a trilogia iniciada por O problema dos três corpos. Os contos não têm ligação de enredo com ela.

"Terra à deriva"

Título original: 流浪地球 (Liulang diqiu). Saiu na Science Fiction World em julho de 2000 e recebeu o Prêmio Galaxy daquele ano na categoria especial. A história é contada por um homem comum que atravessa, ao longo da vida, as etapas do plano conduzido por um governo mundial unificado: a frenagem da rotação, a saída da órbita do Sol e o início de uma viagem prevista para durar 2.500 anos. Ele nasce na fase de frenagem, nunca viu a noite nem as estrelas, e cresce sob o calor dos motores, que eleva a temperatura da superfície a 70 °C. Com o afastamento do Sol, a população se muda para cidades subterrâneas. O narrador conhece a esposa durante uma corrida de motoneve sobre o oceano congelado, de Xangai a Nova York, organizada para levantar o moral da população. Ao mesmo tempo, cresce a oposição ao plano.

"Montanha"

Título original: 山 (Shan). Saiu na Science Fiction World em janeiro de 2006. Feng Fan, um alpinista, vive a bordo de um navio de pesquisa e se recusa a desembarcar. Ele carrega a culpa pela morte de companheiros em sua última expedição e decidiu ficar o mais longe possível de montanhas. Quando uma nave alienígena gigantesca se aproxima da Terra, a gravidade dela ergue uma montanha de água diante do navio, e Feng Fan parte em um bote para chegar ao topo. Lá, os alienígenas fazem contato e contam como uma civilização de máquinas, surgida no núcleo de um planeta, descobriu o universo.

"Sol da China"

Título original: 中国太阳 (Zhongguo taiyang). Saiu na Science Fiction World em janeiro de 2002 e recebeu o Prêmio Galaxy de 2002. O protagonista nasce em uma aldeia pobre e seca do noroeste da China, tem pouco estudo e, depois de trabalhar em uma mina, vai para a cidade engraxar sapatos. No dormitório, conhece um ex-professor universitário que gastou tudo o que tinha em um filme refletor de sua invenção. Ao ver no noticiário o projeto Sol da China, um espelho de 30 mil quilômetros quadrados em órbita geoestacionária feito para alterar o clima de regiões secas, o inventor parte para Pequim e leva o rapaz junto. Os dois se separam na capital, e o jovem passa a limpar janelas de arranha-céus. Anos depois, o inventor o contrata, com outros limpadores de janela, para limpar a superfície do espelho, que perde refletividade no espaço. Recrutar trabalhadores sem formação reduz o custo da operação. Em órbita, ele convive com Stephen Hawking, hóspede de uma estação espacial de repouso.

"Pelo bem da humanidade"

Título original: 赡养人类 (Shanyang renlei). Saiu na Science Fiction World em novembro de 2005 e recebeu o Prêmio Galaxy de 2005. A história se passa no mesmo universo de "Deus sob comando", depois dos acontecimentos daquele conto, quando a primeira nave de uma outra humanidade já está sobre a Terra, à frente de uma frota inteira. É uma história policial: os homens mais ricos da China contratam um assassino de aluguel para matar pessoas sem-teto e, logo depois, passam a oferecer grandes somas de dinheiro a essas mesmas pessoas.

"Maldição 5.0"

Título original: 太原之恋 (Taiyuan zhi lian, "Amor em Taiyuan"), também conhecido como 太原诅咒 ("A maldição de Taiyuan"). Segundo a Wikipedia em chinês, saiu em fevereiro de 2010 na publicação Jiuzhou Huanxiang (九州幻想). O conto começa com um vírus de computador escrito em 2009 por uma programadora para atingir o ex-namorado, e o código passa por novas versões nas mãos de outros programadores. Quase duas décadas depois, dois escritores empobrecidos e sem leitores, um deles uma caricatura do próprio Liu e o outro, Pan Dajiao, inspirado no autor Pan Haitian, trocam o alvo do vírus por um parâmetro que aceita qualquer pessoa, mas mantêm a localização. O programa usa a tecnologia presente em toda parte para arrasar a cidade de Taiyuan. Na versão 5.0, a localização também deixa de ter limite.

"A microera"

Título original: 微纪元 (Wei jiyuan). Saiu na Science Fiction World em abril de 2001. Em 2018, um trecho do conto foi usado como texto de leitura no exame nacional de acesso às universidades chinesas. Um astronauta volta ao Sistema Solar depois de uma longa missão interestelar, sem ter encontrado um novo planeta para a humanidade. O flash de hélio que motivou a missão já aconteceu, e a Terra virou um deserto. Ao pousar, ele encontra pequenas cúpulas habitadas por seres humanos minúsculos, que ao longo de gerações foram reduzidos de tamanho por causa da catástrofe que se aproximava. Os micro-humanos mostram a ele um modo de vida em que é possível saltar dos próprios prédios e criar bactérias como animais de estimação, e contam que já enviaram a Vênus naves do tamanho de bolas de golfe.

"Devoradores"

Título original: 吞食者 (Tunshizhe), também publicado como 人和吞食者. Saiu na Science Fiction World em novembro de 2002 e recebeu o prêmio de indicação dos leitores do Galaxy em 2002. Um cristal alienígena vindo de Épsilon Eridani chega à Terra com um aviso sobre a aproximação do Devorador, uma estrutura em forma de anel que envolve planetas e consome os seus recursos. Pouco depois chega uma nave de vanguarda, de onde sai um emissário de aspecto reptiliano e vários metros de altura. Em uma recepção com chefes de Estado, ele explica que as matérias-primas do Sistema Solar serão saqueadas e devora um chefe de Estado europeu, apresentado como prova de sabor: os humanos não seriam extintos, e sim criados a bordo do Devorador, com vida confortável, até o abate aos sessenta anos. Como condição, a Lua precisa ser retirada da órbita antes da chegada da nave, e a narrativa acompanha os dois séculos seguintes, com as negociações e as tentativas humanas de resistência.

"Deus sob comando"

Título original: 赡养上帝 (Shanyang shangdi). Saiu na Science Fiction World em janeiro de 2005. Em 2012, ganhou o prêmio de ouro de conto da primeira edição do Prêmio Rou Shi. Milhares de naves surgem em órbita e uma multidão de anciãos de barba branca desce às cidades. Eles dizem ter criado a humanidade, o que se confirma, e explicam que a sua civilização envelheceu a ponto de não compreender mais a própria tecnologia. Pedem então para ser sustentados pelas famílias da Terra e oferecem em troca o seu conhecimento científico, que os humanos também não conseguem entender. Uma lei obriga cada família a receber um desses "deuses", e o conto acompanha a convivência difícil entre a família de Qiusheng e o ancião que coube a ela. Jaymee Goh, na Strange Horizons, associa o tema ao dever dos filhos de cuidar dos pais na velhice.

"Com os olhos dela"

Título original: 带上她的眼睛 (Dai shang ta de yanjing). Saiu na Science Fiction World em outubro de 1999 e recebeu o Prêmio Galaxy de 1999, com o primeiro lugar. Uma versão reescrita pelo próprio Liu foi incluída em um livro didático de língua chinesa do sétimo ano. O narrador, funcionário de um centro espacial, sai de férias levando um par de óculos que transmite visão, olfato e tato a quem estiver do outro lado, um recurso para que astronautas impedidos de voltar à Terra possam acompanhar viagens à distância. A pessoa conectada é uma jovem astronauta, e a comunicação acontece sem atraso perceptível, o que leva o narrador a supor que ela está em órbita. Ele vai a uma pradaria que antes era o deserto de Taklamakan, e os dois dão nome a pequenas flores, sentem o vento e observam a lua. A intensidade com que ela reage a cada detalhe e algumas inconsistências na conversa intrigam o narrador, e a explicação, que ele só entende depois das férias, envolve uma viagem ao interior do planeta.

"Bala de canhão"

Título original: 地球大炮 (Diqiu dapao, "O canhão da Terra"). Saiu na Science Fiction World em setembro de 2003 e recebeu o Prêmio Galaxy de 2003. Shen Huabei, engenheiro envolvido na construção de cavernas subterrâneas com explosões nucleares, mostra ao filho e à nora o andamento das obras e um material em um novo estado sólido. Por causa de uma leucemia, ele entra em seguida em sono criogênico. Ao acordar, décadas depois, recebe uma carta da nora avisando que o filho, Shen Yuan, cometeu atos terríveis, e descobre que a sociedade o odeia por causa deles. Um grupo o sequestra e o joga em um poço profundo, e, durante a queda, os sequestradores contam pelo rádio o que aconteceu. A história envolve um túnel que atravessa a Terra, de Mohe, no norte da China, até a Península Antártica.

Recepção

As resenhas da edição em inglês divergiram sobre o equilíbrio entre ideia e personagem. Jaymee Goh, na Strange Horizons, descreveu as longas passagens expositivas como cansativas em contos de primeiro contato como "Montanha", "Devoradores" e "A microera", e destacou "Sol da China" e "Com os olhos dela" pelo efeito emocional. Alexis Ong, na Reactor, considerou que Liu rende mais nos arcos pequenos e pessoais do que na ópera espacial, e citou "Montanha" como exemplo.

Li o livro em agosto de 2026 e dei cinco estrelas no Goodreads, onde escrevi que todos os contos poderiam formar a melhor temporada de Love, Death & Robots.


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