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Por que adaptar a Odisseia exige mudar a moral de Odisseu
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- Michel Fernandes
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A fidelidade a uma obra antiga não se mede apenas pela repetição do enredo. Em uma conversa com Henrique Caldeira, Jurandir Gouveia e Reinaldo Lopes, a adaptação da Odisseia por Christopher Nolan serviu para discutir um problema maior: como traduzir para o público atual uma história nascida em outro regime moral, em que astúcia, saque, glória e hospitalidade tinham pesos diferentes dos nossos.
O ponto mais forte da discussão aparece na comparação entre o Odisseu de Homero e o Odisseu de Nolan. No poema, ele é admirado pela inteligência, pela capacidade de enganar e pelo desejo de ter seu nome lembrado. A cena do ciclope Polifemo concentra isso: depois de sobreviver por meio do ardil de se chamar “Ninguém”, ele revela seu nome, origem e endereço heroico, movido pelo desejo de glória. O erro não é exatamente moral no sentido moderno; é uma hybris que atrai a vingança de Poseidon.
No filme descrito pelos participantes, esse eixo muda. Odisseu não é movido apenas pela glória, mas carregado por uma ferida moral: o que o assombra não é somente o que sofreu, e sim o que fez. A ideia foi aproximada por Jurandir da distinção entre trauma e culpa de guerra, com referência a soldados marcados não apenas pela violência recebida, mas pela violência praticada. Daí a leitura do cavalo de Troia como uma espécie de bomba moral: uma vitória obtida pela inteligência, mas cujo custo destrói inocentes e profana a própria ordem que os gregos diziam defender.
Essa mudança não torna a adaptação menos homérica; torna explícito o deslocamento entre mundos. Henrique lembra que a própria Odisseia já era uma etapa de uma tradição oral em transformação, e Reinaldo reforça que leitores antigos também reinterpretaram Homero por lentes filosóficas e morais posteriores. A pergunta concreta, então, não é se uma adaptação deve repetir o texto antigo, mas que tipo de perda ela aceita para produzir sentido hoje. No caso discutido, Nolan troca a glória pela penitência, e essa troca define a sua Odisseia.
Referências encontradas
Livros
- O Livro de Enoque — Ver livro na Amazon
- O Senhor dos Anéis: a Sociedade do Anel, de J. R. R. Tolkien — Ver livro na Amazon
- Silmarillion, o CAPA Leitura, de J. R. R. Tolkien — Ver livro na Amazon
- Darwin Sem Frescura, de Pirula; Reinaldo José Lopes — Ver livro na Amazon
Filmes
- Fight Club — Ver no TMDB
- 300 — Ver no TMDB
- The Odyssey, de Nolan — Ver no TMDB
- Memento, de Nolan — Ver no TMDB
- Inception, de Nolan — Ver no TMDB
- Tenet, de Nolan — Ver no TMDB
- Oppenheimer, de Nolan — Ver no TMDB
- Moana — Ver no TMDB
- The Hobbit — Ver no TMDB
- Troy — Ver no TMDB
- Clash Of The Titans — Ver no TMDB
- Jason And The Argonauts — Ver no TMDB
- Gladiator — Ver no TMDB
- Interstellar, de Nolan — Ver no TMDB
- Twilight — Ver no TMDB
- The Passion Of The Christ, de Mel Gibson — Ver no TMDB
- The Lord Of The Rings — Ver no TMDB
- Titanic — Ver no TMDB
- Snow White — Ver no TMDB
- 12 Years a Slave — Ver no TMDB
- Black Panther — Ver no TMDB
- The Return — Ver no TMDB
- Men In Black — Ver no TMDB
- Megalopolis, de France For Copola — Ver no TMDB
- Apocalypto, de Mel Gibson — Ver no TMDB
Séries
- DuckTales — Ver no TMDB
- The Chosen — Ver no TMDB
- The Lord Of The Rings: The Rings Of Power — Ver no TMDB
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