Published on

Odisseia de Nolan: quem invoca Homero é cobrado por ele

Authors
Ilustração de capa do post Odisseia de Nolan: quem invoca Homero é cobrado por ele

Uma adaptação pode mudar muita coisa; o problema começa quando ela pede a autoridade da obra antiga e, ao mesmo tempo, rejeita os limites que essa autoridade impõe. A discussão entre Rogério Vilela e Thiago Braga sobre a nova Odisseia de Nolan gira em torno dessa tensão. Braga não nega a liberdade artística do diretor: se o filme é uma produção privada, ele pode escolher elenco, visual e estrutura como quiser. A questão editorialmente mais interessante é outra. Quando a defesa do filme tenta justificar escolhas com base em Homero, na cultura grega ou na história antiga, deixa de bastar a frase “é só um filme”.

Esse ponto aparece primeiro na distinção entre mito e ficção. Braga insiste que Ilíada e Odisseia não foram criadas como fantasia no sentido moderno. Para os gregos, os deuses, os heróis e os lugares da narrativa organizavam uma explicação do mundo e da própria origem. Isso não obriga ninguém hoje a acreditar em ciclopes ou em Zeus, mas muda o modo de leitura. Tratar a Odisseia como se fosse apenas uma franquia disponível para qualquer rearranjo empobrece a obra, porque ignora que ela era, para aquele povo, memória, religião, geografia e identidade narradas juntas.

A crítica ao filme nasce desse critério de coerência. Braga aceita que uma adaptação corte episódios, simplifique cenas ou reorganize eventos. O que ele rejeita é a inversão de elementos centrais quando o projeto continua se apresentando como adaptação de Homero. A ausência dos deuses, por exemplo, pesa porque a narrativa preserva monstros como ciclope, Sila e Caríbdis. O resultado, na leitura dele, fica instável: o sobrenatural existe quando convém ao espetáculo, mas desaparece quando seria necessário para explicar a lógica do mundo homérico. O mesmo vale para o Odisseu marcado por culpa moderna, distante do herói astucioso, piedoso e violento que a obra antiga descreve dentro de outra moral histórica.

A conversa também mostra um limite útil para o debate público sobre adaptações. Não é preciso exigir reconstituição arqueológica absoluta; o próprio Braga relativiza capacetes, armaduras e soluções práticas de cinema. Mas há diferença entre acomodar uma linguagem audiovisual e usar a obra original apenas como prestígio cultural. Quando um filme desperta vontade de ler Homero, ele já cumpriu uma função relevante. A consequência é que essa leitura pode voltar contra o filme: quanto mais uma adaptação convoca uma tradição, mais ela precisa explicar o que decidiu preservar, deslocar ou apagar.

Assistir ao episódio original

Leia também: Adaptações de Homero e a fidelidade impossível, Odisseia como leitura do colapso de uma ordem, Adaptar a Odisseia exige mudar a moral de Odisseu.

Referências encontradas

Livros

Filmes

Séries

Este post contém links de afiliado. Se você comprar por eles, eu posso receber uma pequena comissão sem custo adicional para você.