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O custo de tratar pardos brasileiros por um binarismo racial importado

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A discussão sobre raça no Brasil perde precisão quando tenta encaixar a experiência parda em um binarismo rígido entre branco e negro. Na conversa com Rogério Vilela, Beatriz Bueno e Sávio Di Maio trataram esse ponto como parte de uma crise maior da esquerda: a dificuldade de formular políticas universais sem apagar experiências específicas. O caso dos pardos aparece como exemplo concreto porque toca identidade, cotas, militância acadêmica e disputa por representação, mas também porque expõe um problema prático: uma política pública pode nascer de dados sobre pretos e pardos e, na execução, reconhecer apenas quem se aproxima do fenótipo preto.

Beatriz sustenta que a importação de categorias dos Estados Unidos empobrece a leitura brasileira. Lá, segundo ela, a regra de uma gota de sangue e a segregação legal criaram uma história racial diferente. No Brasil, a mestiçagem não elimina o racismo, mas organiza famílias, trajetórias e ambiguidades de outro modo. A crítica dela não é à existência de políticas raciais, e sim ao modo como certas bancas de heteroidentificação e certos discursos militantes passam a exigir que o pardo se declare negro para ter legitimidade política, enquanto podem rejeitá-lo quando a aparência não corresponde ao critério esperado.

O argumento ganha força porque não fica no plano abstrato. Beatriz relata ter sofrido racismo recreativo na infância, ter se declarado negra por alguns anos e depois ter percebido que essa categoria não dava conta da sua experiência familiar e social. Também cita casos de rejeição em bancas e afirma ter sido expulsa da universidade em meio a pressões por suas posições. São relatos e acusações que dependem de apuração institucional, mas ajudam a iluminar o mecanismo descrito: quando uma narrativa vira requisito moral, a divergência deixa de ser tratada como hipótese acadêmica e passa a ser lida como traição política.

Sávio amplia o diagnóstico ao afirmar que a esquerda se afastou de uma linguagem material capaz de falar com trabalhadores preocupados com segurança, transporte, renda, creche e jornada. A defesa de Beatriz por reconhecer pardos como mestiços não resolve sozinha esse impasse, mas obriga uma pergunta incômoda: se a esquerda quer disputar políticas públicas no Brasil real, ela pode continuar usando categorias que simplificam justamente a população que pretende representar?

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