- Published on
O crime organizado também opera no andar de cima
- Authors

- Name
- Michel Fernandes
- @michelpf

O debate público brasileiro costuma reconhecer o crime organizado quando ele aparece armado na rua, mas tem dificuldade de enxergá-lo quando ele usa banco, fundo de investimento, jatinho executivo e escritório bem localizado. Na conversa de Rogério Vilela com Leandro Demori e César Calejon, esse foi o ponto mais forte: a investigação sobre o caso Master é apresentada como uma tentativa de deslocar o foco do varejo criminal para as engrenagens financeiras, políticas e jurídicas que permitem fraudes em escala muito maior.
Demori parte da história de Mauro Matozinho, piloto de aviação executiva que, segundo o relato, transportou empresários, políticos e operadores em voos privados e depois procurou os jornalistas para contar o que viu e ouviu. A preocupação dos autores com checagem aparece no modo como descrevem o processo: investigar o próprio piloto, confrontar datas, voos, documentos e relatos, antes de publicar. Ainda assim, a força do caso não está apenas na figura da testemunha. Está no ambiente que ela revela: aeroportos exclusivos, jatos de dezenas de milhões de dólares, dinheiro em espécie, suspeitas de donos ocultos, relações com políticos e estruturas que a Polícia Federal teria descrito como próximas de uma organização paramilitar.
O mecanismo mais relevante é a normalização legal da opacidade. Ao falar de fundos de investimento, Demori sugere que parte da sofisticação do crime financeiro está justamente em operar dentro de formas permitidas, difíceis de escrutinar e acessíveis a poucos. A conversa menciona a Reag, papéis do antigo Besc, a tentativa de usar o BRB como solução para o Master e a distância entre quem toma o risco e quem paga a conta. Há ressalvas importantes: investigações seguem em parte sigilosas, acusações precisam ser provadas e nem todo uso de fundo implica crime. Mas a estrutura descrita ajuda a entender por que escândalos financeiros raramente cabem na imagem simplificada de “corrupção” ou “colarinho branco”.
A consequência política é direta. Quando candidatos prometem enfrentar o crime apenas com a linguagem do confronto policial, evitam a pergunta mais difícil: quem tem força para investigar banqueiros, senadores, empresários, intermediários e autoridades que circulam no mesmo ecossistema? A conversa não absolve o crime de rua, mas mostra que ele é insuficiente para explicar o problema. Se a República só enxerga o elo mais frágil da cadeia, a repressão vira espetáculo e a engrenagem principal continua preservada.
Referências encontradas
Livros
- Tudo o Que a Luz Alcança, de César Calejon — Ver livro na Amazon
- Os Últimos Soldados da Guerra Fria, de Fernando Morais — Ver livro na Amazon
- Esfarrapados: Como o Elitismo Histórico-cultural Moldou as Desigualdades no Brasil, de César Calejon — Ver livro na Amazon
- Manifesto do Partido Comunista: Manifesto do Partido Comunista POR Karl Marx e Friedrich Engels, de Karl Marx; Friedrich Engels — Ver livro na Amazon
Filmes
- Top Gun — Ver no TMDB
- VIPs — Ver no TMDB
Séries
- Mad Men — Ver no TMDB
Este post contém links de afiliado. Se você comprar por eles, eu posso receber uma pequena comissão sem custo adicional para você.