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China, reindustrialização e os limites do projeto brasileiro

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A conversa parte da repercussão das reportagens do Fantástico sobre a China para discutir o que, segundo Elias Jabbour e José Kobori, costuma ficar fora da leitura mais superficial sobre o país: o papel do planejamento estatal, da propriedade pública da terra, dos bancos públicos, das empresas estratégicas e da direção política do Partido Comunista. Kobori afirma que a série derruba o mito da superioridade automática da iniciativa privada, ao comparar custos e velocidade de execução na China e nos Estados Unidos. Elias acrescenta que admirar as cidades inteligentes, os trens e a infraestrutura chinesa sem aceitar os mecanismos que tornaram isso possível produz uma contradição: o modelo depende de instrumentos que a direita liberal brasileira tende a rejeitar.

Os dois associam o desempenho chinês a uma economia não financeirizada, na qual o sistema financeiro serve à produção e ao planejamento de longo prazo. Elias sustenta que a financeirização não é uma anomalia, mas a forma atual do capitalismo, e contrasta isso com a China, onde inteligência artificial, big data, 5G, 6G e computação quântica estariam sendo incorporados à planificação. Kobori recorre a Michael Hudson para argumentar que até a economia clássica já via o rentismo como um obstáculo à indústria. A discussão leva ao Brasil: sem Estado, bancos públicos, compras governamentais e coordenação, não há exemplo histórico de país que tenha alcançado a fronteira tecnológica.

A tese central para o Brasil é que a dependência de commodities limita qualquer projeto de soberania. Kobori lê a conjuntura internacional como transição para uma ordem multipolar, com os Estados Unidos tentando recompor influência nas Américas e a China ampliando sua presença econômica. Para eles, o Brasil não deve escolher subordinação automática a nenhum polo, mas construir poder de barganha com um projeto nacional próprio. Isso passa por reindustrialização, investimento em ciência e tecnologia e abandono das amarras de austeridade que restringem a capacidade do Estado. Elias relaciona a precarização dos entregadores, a segurança pública e a falta de futuro para jovens das periferias à ausência de empregos industriais de qualidade.

No fim, Vilela entra relatando sua experiência recente na China e compara a sensação de segurança, limpeza e vida pública noturna com a piora que percebeu em Nova York. A partir disso, os participantes discutem liberdade, democracia, religião, redes sociais e o lugar do setor privado chinês, defendendo que empresários podem enriquecer, mas não converter poder econômico em comando político. As perguntas do público deslocam a conversa para temas práticos: taxação de plataformas chinesas, reforma agrária, agronegócio, automóveis elétricos, liberdade religiosa e diferenciação legal entre capital nacional e estrangeiro. A questão que permanece é como formar, no Brasil, uma maioria política capaz de sustentar esse projeto sem copiar a China nem aceitar a dependência atual como destino.

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