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A volta do território como problema central da política externa brasileira
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- Michel Fernandes
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A promessa de que a globalização reduziria a importância das fronteiras envelheceu mal. Na conversa de Rogério Vilela com André Martin e Vítor Del Vecchio, a ideia mais útil aparece quando a geopolítica é recolocada no centro do problema: países continuam disputando espaço, recursos, rotas e capacidade industrial. André lembra que já desconfiava, nos anos 1990, da tese de que a abertura de mercados dissolveria as fronteiras. Para ele, território não desaparece como fator de poder; muda de forma, mas continua operando.
O mecanismo é simples e desconfortável. O comércio não elimina conflito quando a troca é desigual ou quando recursos críticos ficam concentrados. A crise da globalização, segundo os participantes, aparece no protecionismo americano, na disputa com a China, na pressão sobre petróleo, terras raras, rotas marítimas e energia. A China entra na conversa como exemplo de planejamento de longo prazo: estoques de petróleo, investimento em transição energética, domínio de energia solar, eólica e nuclear, além da tentativa de reduzir dependências externas. A disputa por Taiwan, pelo estreito de Malaca e pelas ilhas artificiais no mar do Sul da China mostra que infraestrutura, navegação e soberania seguem conectadas.
O ponto ganha consequência direta para o Brasil quando a conversa passa por Amazônia, água, energia, data centers e terras raras. Vítor observa que o país tem recursos que se tornaram estratégicos para a nova economia, mas isso tanto cria oportunidade quanto vulnerabilidade. André defende que o Brasil não deveria apenas exportar matéria-prima bruta, repetindo o padrão do petróleo ou do café, e sugere uma solução nacional para terras raras, inspirada na lógica da Petrobras. A ressalva é importante: ter recurso não basta. Sem tecnologia, refino, regulação e capacidade de negociação, a soberania formal pode conviver com controle econômico externo.
A consequência prática é que política externa não pode ser tratada como improviso verbal nem como alinhamento automático. A conversa critica a falta de projeto nacional e a perda de atenção à geopolítica em diferentes governos. Num ambiente em que energia, água, rotas, chips e minerais organizam disputas entre potências, o Brasil precisa decidir se será apenas fornecedor de território e recursos ou se vai construir instrumentos para agregar valor, proteger seus ativos e negociar de forma menos vulnerável. Essa escolha é menos abstrata do que parece: ela passa por refinarias, ferrovias, tecnologia mineral, diplomacia amazônica e capacidade de planejar além do ciclo eleitoral.
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Referências encontradas
Livros
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- O Fim da História e o Último Homem, de Francis Fukuyama — Ver livro na Amazon
- Ascensão e Queda das Grandes Potências, de Paul Kennedy — Ver livro na Amazon
Filmes
- The Day After — Ver no TMDB
- WarGames — Ver no TMDB
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