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Agilidade falha quando vira ritual para evitar decisões difíceis
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- Michel Fernandes
- @michelpf

A crítica mais útil à agilidade, na conversa de Fabio Akita, não é que métodos, quadros e cerimônias sejam sempre inúteis. O ponto mais forte é outro: eles passam a falhar quando viram uma forma socialmente aceita de evitar responsabilidade. A ideia original do desenvolvimento ágil de software, como ele apresenta, era dar passos curtos, observar o resultado, corrigir o caminho e repetir. Isso exige julgamento, clareza sobre valor e disposição para abandonar iniciativas ruins. Quando a empresa substitui esse trabalho por rituais, métricas e consultorias, preserva a aparência de controle e perde o mecanismo que deveria protegê-la do desperdício.
Akita insiste na diferença entre software e produção industrial porque ela explica parte da distorção. Técnicas como kanban, lean e six sigma nasceram em contextos físicos, com restrições materiais, processos repetíveis e medições mais estáveis. Software pertence a outro tipo de trabalho: é abstração, depende fortemente da qualidade das pessoas, da clareza do problema e das decisões de produto. Por isso, números como velocidade, lead time ou work in progress podem organizar uma conversa, mas não provam que valor foi entregue. A pergunta decisiva continua sendo menos confortável: o software certo foi feito, pelo custo aceitável, com retorno real para o negócio?
Essa crítica fica mais concreta quando ele descreve pedidos mal definidos, projetos que deveriam ser recusados e equipes ocupadas preenchendo backlog sem discutir se a demanda deveria existir. A agilidade, nessa leitura, aparece menos como um conjunto de técnicas e mais como uma postura adulta diante do risco. Estimar é difícil, clientes mudam de ideia, programadores erram, gestores contratam mal e projetos começam sem necessidade. Nenhuma metodologia elimina isso. O que ela pode fazer, quando usada com sobriedade, é reduzir o tamanho da aposta, criar pontos de corte e tornar visível a decisão de continuar ou parar.
A consequência prática é incômoda para empresas e profissionais. Se autonomia significa liberdade sem assumir o custo das escolhas, ela vira desculpa. Se processo significa proteção contra qualquer erro, ele vira paralisia. A cobrança de Akita é por accountability: tratar desenvolvedores, gestores e clientes como adultos capazes de conversar sobre expectativas, trade-offs e perdas. Antes de contratar mais uma implementação de agilidade, a pergunta concreta deveria ser simples: qual decisão difícil está sendo adiada por trás do novo processo?
Referências encontradas
Livros
- Refatoração: Aperfeiçoando o Design de Códigos Existentes, de Martin Fowler — Ver livro na Amazon
- O Programador Pragmático: de Aprendiz a Mestre, de Andrew Hunt; David Thomas — Ver livro na Amazon
- Código Limpo: Habilidades Práticas do Agile Software, de Robert C. Martin — Ver livro na Amazon
Séries
- The Walking Dead — Ver no TMDB
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