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A defesa do programador numa correção das startups é a prática deliberada
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- Michel Fernandes
- @michelpf

A possível correção no mercado de startups importa menos como previsão financeira e mais como teste de carreira: quando o dinheiro barato recua, sobra menos espaço para quem confundiu programação com atalho. Fabio Akita organiza sua advertência a partir dessa ligação entre duas coisas que costumam ser tratadas separadamente: a formação do programador como profissão de prática e a fragilidade de empresas que cresceram por captação, valuation e promessa de escala, sem lucro visível.
O mecanismo é simples. Programar, para Akita, se parece mais com cozinhar profissionalmente do que com aprender um procedimento. Seguir uma receita, copiar um tutorial ou entregar tarefas simples depois de algumas semanas não transforma alguém em profissional sólido. O risco está justamente na fase em que pouco conhecimento já permite produzir alguma coisa. A pessoa recebe elogios de quem não sabe avaliar tecnicamente, ganha confiança, passa a discutir remuneração como se houvesse uma média natural a ser perseguida e para de ampliar o repertório. Na metáfora dele, é o cozinheiro que só sabe fazer ovo frito e encontra desculpas quando aparece uma salada.
A tese fica mais dura quando ele aproxima essa formação incompleta do ciclo das startups. Akita descreve o período posterior a 2008 como uma década de liquidez, cloud, aplicativos, redes sociais, big data, coworkings, incubadoras e unicórnios. O problema, segundo ele, é que muitas dessas empresas operam com fluxo de caixa negativo e justificam valuations altos pela aquisição de usuários e dados, não por receita e lucro. Ele cita IPOs decepcionantes e compara o ambiente ao fim da bolha pontocom, preservando uma ressalva importante: ninguém prevê o futuro com certeza. Ainda assim, sua leitura é que a conta tende a fechar em algum momento.
Daí a consequência prática. Benefícios de escritório, promessas de stock options e a troca frequente de emprego por pequenas diferenças salariais podem funcionar enquanto a demanda cresce e o capital tolera prejuízo. Numa contração, a empresa tende a preservar quem entrega com consistência, cumpre prazo, custo e qualidade, e consegue operar em cenários diferentes. A recomendação não é heroica nem confortável: tratar programação como prática deliberada, inclusive fora da rotina mínima do trabalho, antes que o mercado volte a separar com mais rigor quem só aprendeu a parecer produtivo de quem realmente sustenta a produção.
Referências encontradas
Livros
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