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Violência urbana e o custo mental do alerta permanente

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A violência urbana produz um tipo de adoecimento que costuma aparecer como problema individual: insônia, irritabilidade, medo de sair, perda de prazer. Na conversa entre Ana Beatriz Barbosa e Rogério Vilela, a psiquiatra desloca o tema da segurança pública para a saúde mental. A imagem que ela usa é direta: viver com medo constante de assalto, assédio ou sequestro cotidiano do espaço público aciona o mesmo sistema de alerta de alguém sozinho numa floresta desconhecida.

O mecanismo descrito é físico antes de ser moral. O medo contínuo libera cortisol e adrenalina, altera sono, pressão, metabolismo, insulina, testosterona e pode abrir caminho para pânico e depressão. Não se trata só de uma pessoa mais sensível ao noticiário. Ana cita a gangue da pedra, roubos de celular por moto ou bicicleta, mulheres em transporte público expostas a assédio, a necessidade de compartilhar localização no Uber. A rotina passa a exigir cálculo defensivo permanente.

Esse custo é desigual, mas não fica restrito a uma classe. Quem tem mais dinheiro compra carro blindado ou se refugia em ambientes controlados; ainda assim não elimina a ameaça. Quem depende de ônibus, trem, rua escura e deslocamento diário absorve o impacto com menos proteção. A comparação com burnout ajuda a esclarecer o ponto: há métricas e categorias para o esgotamento ligado ao trabalho, mas o adoecimento produzido pela violência não aparece com a mesma nitidez nas estatísticas nem no debate público.

A consequência prática é tratar segurança como infraestrutura de saúde. Isso não substitui políticas específicas de polícia, investigação, mercado de celulares roubados, fluxo de dinheiro e crime organizado, temas que também aparecem na conversa. Mas muda a pergunta feita em consultórios, escolas e empresas: a pessoa dorme mal porque falhou em se organizar ou porque vive em alerta? Sem esse diagnóstico, a violência continua sendo contabilizada apenas quando vira ocorrência policial, e não quando já reduziu a vida antes do crime acontecer.

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