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Sem território recuperado, inteligência contra facções vira diagnóstico incompleto

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O combate ao crime organizado fica incompleto quando trata a facção apenas como rede financeira, logística ou prisional e deixa em segundo plano o território que ela controla. Na conversa com Rogério Vilela, Rodrigo Pimentel e o coronel Fernando Montenegro insistem nesse ponto a partir de experiências no Rio de Janeiro, na Amazônia e em Portugal. A tese é direta: seguir o dinheiro, bloquear fuzis, melhorar perícia e endurecer presídios são medidas necessárias, mas não substituem a retirada concreta de barricadas, armas e comandos locais.

O mecanismo descrito por eles é o da soberania prática. Onde a facção controla entrada, circulação, gás, internet, baile, ambulância e comércio, o Estado passa a atuar por exceção. Montenegro relata que, durante a ocupação do Complexo do Alemão e da Penha, empresas formais evitavam entregar gás dentro da área, enquanto uma fornecedora ligada à família de Marcinho VP operava legalmente e sem concorrência real. Pimentel usa o exemplo recente de Búzios, com moradores pressionados a trocar operadoras convencionais pela internet da facção, para mostrar que o domínio territorial já não se restringe à favela tradicional.

A crítica deles ao discurso da “inteligência” não é rejeição à investigação. Pimentel reconhece a importância de perseguir lavagem de dinheiro, impedir a chegada de fuzis, modernizar presídios e melhorar a elucidação de homicídios. O limite aparece quando essas políticas são imaginadas sem acesso físico ao local onde o crime arrecada, pune, coage e silencia. Em territórios ocupados, testemunhas não falam, câmeras não existem ou não funcionam, ambulâncias não entram, serviços públicos dependem de autorização informal e o homicídio pode nem ser preservado como cena de crime.

Há ressalvas importantes na própria conversa. A presença estatal armada pode produzir abusos, erro de abordagem, desgaste com moradores e disputas de narrativa; Montenegro e Pimentel citam casos em que militares e policiais agiram mal ou foram acusados injustamente. O ponto central, porém, permanece: uma política pública que não decide como recuperar território aceita que milhões de pessoas vivam sob regras privadas impostas por facções. A pergunta prática deixa de ser se inteligência importa, e passa a ser quem garante, na rua, que a lei volte a valer.

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