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O desperdício em saúde começa antes da consulta com o especialista
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- Michel Fernandes
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Parte relevante do desperdício na saúde privada nasce de uma decisão aparentemente simples: para onde o paciente vai primeiro. Na conversa com Adriano Almeida e Marcel Almeida, Guilherme Azevedo, cofundador da Alice, organiza sua crítica ao modelo brasileiro a partir desse ponto. Ele relata o impacto de conhecer a Kaiser Permanente, na Califórnia, e descobrir a centralidade da atenção primária em um sistema privado de grande escala. O contraste é direto: no Brasil, dor de cabeça tende a virar neurologista ou pronto-socorro; dor nas costas, ortopedista. Para ele, essa lógica fragmenta o cuidado, eleva custos e torna o percurso clínico pouco coordenado.
A aposta da Alice é interpor uma camada clínica antes da especialidade, com enfermeiros, médicos de família, prontuário próprio e histórico do paciente acessível no atendimento. Guilherme afirma que 80% das demandas são resolvidas no primeiro canal, chamado Alice agora. O exemplo do filho com febre no domingo à noite mostra o mecanismo: em vez de decidir sozinho entre esperar ou correr para o pronto-socorro, o paciente fala com alguém que conhece seu contexto e pode orientar a conduta. A tecnologia entra menos como vitrine e mais como infraestrutura para reduzir repetição, perda de informação e encaminhamentos pouco pertinentes.
O mesmo raciocínio aparece na relação com médicos, hospitais e laboratórios. A empresa remunera especialistas com métricas clínicas e de qualidade, usa seu próprio prontuário no atendimento e fecha pacotes com hospitais para procedimentos como cirurgia de ligamento cruzado anterior, com protocolo discutido por ortopedistas. A premissa é tirar atrito de onde normalmente há conta aberta, disputa de material, reembolso opaco e pouca visibilidade sobre a prática clínica. Há uma tensão importante: esse grau de coordenação pode produzir eficiência, mas depende de confiança entre paciente, operadora, médicos e RHs, justamente em um setor marcado por conflito e judicialização.
A mudança de modelo também impõe limites de crescimento. Guilherme rejeita a ideia de salto rápido em saúde e fala em consistência anual, porque a rede, os dados clínicos e a confiança não se compram de uma vez. A consequência prática é que inovação em saúde privada não se mede só por aplicativo ou inteligência artificial, mas pela capacidade de redesenhar o primeiro acesso, o encaminhamento e o incentivo econômico. Para empresas pressionadas por reajustes sucessivos, a pergunta concreta passa a ser se estão comprando apenas cobertura ou um sistema capaz de evitar parte do cuidado desnecessário antes que ele vire custo.
Referências encontradas
Livros
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- Study Guide: Shadow Divers By Robert Kurson (SuperSummary), de Robert Kurson — Ver livro na Amazon
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