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Interesse público não é o mesmo que interesse do público
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- Michel Fernandes
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Interesse público não é sinônimo de interesse do público. Essa distinção, defendida por Chico Pinheiro em conversa com Rogério Vilela, ajuda a organizar uma parte relevante do debate sobre jornalismo, política e redes digitais. Para ele, o repórter não desaparece como sujeito: escolhe o que olhar, o ângulo, o tempo e a hierarquia da notícia. O ponto decisivo é outro. A escolha deve se ancorar naquilo que afeta a vida coletiva, e não apenas no que captura atenção por medo, sexo, morte, fofoca ou escândalo.
A diferença aparece nos exemplos concretos. Um acidente de ônibus pode ser irrelevante para um jornal nacional ou se tornar central se envolver crianças, negligência pública ou uma autoridade bêbada. Da mesma forma, uma festa envolvendo empresários, ministros e presidentes de Poderes não interessa jornalisticamente por seus detalhes íntimos, mas por possíveis vínculos com processos, bancos públicos, aposentadorias e decisões institucionais. O problema não é a curiosidade sobre a vida privada; é quando a curiosidade encobre o que deveria ser investigado.
Pinheiro também rejeita a ideia de neutralidade como ausência de posição. A frase “neutro é shampoo de bebê” resume uma crítica recorrente na conversa: todo jornalista tem história, valores e leitura de mundo. Isso não autoriza descuido com fatos. Ao contrário, exige explicitar critérios e separar opinião de apuração. Em ambiente polarizado, a falsa equivalência pode ser tão danosa quanto a militância desonesta, especialmente quando um lado é apresentado, segundo ele, como candidatura normal apesar de flertar com autoritarismo e ruptura democrática.
O mesmo raciocínio vale para as redes. O que circula mais não é necessariamente o que importa mais. Pinheiro descreve seguidores que somem, visualizações que caem, algoritmos opacos e bolhas que substituem informação por convicção repetida. Há especulação nisso, e ele reconhece não dominar os mecanismos. Mas a consequência prática permanece: se o jornalismo aceita ser guiado apenas pelo interesse do público, ele vira fornecedor de estímulo. Se insiste no interesse público, precisa investigar poder, dinheiro e decisão, mesmo quando a audiência prefere a superfície.
Referências encontradas
Livros
- O Que os Donos do Poder Não Querem Que Você Saiba, de Eduardo Moreira — Ver livro na Amazon
- Natureza, Cultura e Desigualdades: Uma Perspectiva Comparativa e Histórica, de Thomas Piketty — Ver livro na Amazon
- Vidas Secas - Graciliano Ramos: Edição Especial com Marcador + Postal, de Graciliano Ramos — Ver livro na Amazon
- Manifesto do Partido Comunista: com Todos os Prefácios de Marx e Engels e os Estatutos da Liga dos Comunistas, de Karl Marx; Friedrich Engels — Ver livro na Amazon
- Pedagogia da Autonomia, de Paulo Freire — Ver livro na Amazon
Séries
- Lippy The Lion & Hardy Har Har — Ver no TMDB
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