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Arquitetura ágil exige confiança para admitir incerteza
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- Michel Fernandes
- @michelpf

A confiança mais útil para um arquiteto talvez seja a capacidade de dizer “não tenho certeza” sem transformar isso em paralisia. Na conversa com Birgitta Böckeler em Adaptive Organizations meet Architecture, essa ideia aparece como resposta a um tipo comum de feedback profissional: ser “mais confiante”. O ponto dela não é defender hesitação permanente, mas mostrar que, em software, confiança genérica pode virar uma forma sofisticada de cegueira. Arquitetura lida com sistemas complexos, mudanças rápidas, dependências externas e usuários que se comportam de modo diferente do previsto. Nesse ambiente, certeza demais não reduz a incerteza; apenas a encobre.
Os vieses cognitivos ajudam a explicar por que isso importa. Böckeler cita o viés de confirmação em debates sobre escolhas técnicas: uma equipe tende a lembrar exemplos que sustentam a posição que já prefere. O mesmo ocorre quando uma regra antes dominante, como “não se repita”, passa a conviver com a ideia de aceitar alguma duplicação para evitar acoplamento. O problema não é ter experiência, nem reconhecer padrões. O risco está em confundir experiência com prova e transformar um caso marcante em regra geral.
Esse mecanismo fica mais concreto nos exemplos de risco e depuração. O viés de risco zero leva times a gastar esforço excessivo para eliminar um risco pequeno, como evitar qualquer dependência de fornecedor ou abstrair uma tecnologia cedo demais, enquanto o risco total do produto aumenta por atraso ou complexidade. A heurística da disponibilidade aparece quando um bug recente de encoding faz alguém perseguir a mesma hipótese em outro contexto, mesmo sem evidência forte. A recomendação prática não é abolir intuição, mas submetê-la a método: formular hipóteses, parear, explicar o raciocínio, usar modelos de avaliação de risco e explicitar trade-offs.
A parte mais forte da fala está na distinção entre decisão e resultado. A escolha de uma biblioteca que depois perde espaço, como no caso Reflux versus Redux citado por Böckeler, pode ter produzido um mau resultado sem ter sido uma decisão ruim com as informações disponíveis. O inverso também vale: uma escolha feita por imitação pode dar certo por sorte. Por isso, registros de decisão que documentam contexto, alternativas, riscos e razões não são burocracia; são uma defesa contra a tendência de reescrever o passado. A consequência é direta: avaliar arquitetos pela aparência de certeza empobrece o trabalho. Melhor é exigir confiança situacional, capaz de agir em incrementos, mudar de ideia e deixar rastros suficientes para aprender depois.
Referências encontradas
Livros
- Rápido e Devagar: Duas Formas de Pensar, de Daniel Kahneman — Ver livro na Amazon
- A Arte de Pensar Claramente, de Rolf Dobelli — Ver livro na Amazon
- Thinking In Bets, de Annie Duke — Ver livro na Amazon
- Fundamentos da Arquitetura de Software: Uma Abordagem de Engenharia: 1, de Mark Richards; Neal Ford — Ver livro na Amazon
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