Published on

A fidelidade impossível nas adaptações de Homero

Authors
a-fidelidade-imposs-vel-nas-adapta-es-de-homero

A cobrança por uma adaptação fiel de uma obra antiga parte de uma premissa frágil: a de que existe uma leitura objetiva, estável e recuperável do texto original. Na conversa com Rogério Vilela, Clóvis de Barros e Lúcia Helena Galvão trataram da Odisseia a partir dessa tensão, especialmente diante da versão cinematográfica atribuída a Nolan. Clóvis formulou o ponto com clareza: ler já é reconstruir. Cada leitor relaciona o texto ao próprio repertório, ao tempo em que vive e às experiências que carrega. Por isso, quando alguém acusa um filme de trair Homero, muitas vezes está defendendo a própria leitura como se ela fosse o espírito do autor.

Esse argumento não elimina a crítica. Ele muda o critério. O filme pode ser julgado como cinema, como interpretação e como obra situada em valores contemporâneos, mas a exigência de correspondência matemática com a Odisseia de Homero é, para Clóvis, uma impossibilidade material. Lúcia Helena acrescentou uma ressalva importante: a versão moderna desloca o eixo simbólico para um drama psicológico. O Odisseu homérico, ligado a uma ordem de deuses, provas e destino, não é o mesmo homem atravessado por culpa e trauma no registro atual. A mudança pode empobrecer certos elementos, mas também revela o tempo de quem adapta.

A discussão sobre as personagens femininas ilustra o problema. Há quem critique o esvaziamento de Circe, Penélope ou outras figuras em relação ao texto antigo. Lúcia Helena respondeu que, se a cobrança é por fidelidade, ela deveria valer para tudo, inclusive para o próprio Odisseu. Se a obra é assumida como versão, convém perguntar o que ela faz com os símbolos, não apenas o que ela deixou de reproduzir. O mesmo vale para os monstros, as sereias, o ciclope e a volta a Ítaca: eles não funcionam como códigos de tradução única, mas como imagens que abrem interpretações sobre desejo, vaidade, egoísmo, inteligência e retorno a si.

A consequência prática é simples e exigente: diante de uma adaptação, a pergunta mais produtiva talvez não seja se ela copiou corretamente o original, mas que leitura ela tornou visível e que perdas essa leitura produziu. Um filme pode despertar interesse por Homero sem substituir Homero. Pode errar historicamente e ainda revelar algo sobre o modo contemporâneo de entender culpa, identidade e desejo. O risco está em tomar a versão como texto definitivo ou em transformar a própria leitura do clássico em tribunal absoluto.

Assistir ao episódio original

Referências encontradas

Livros

Filmes

Este post contém links de afiliado. Se você comprar por eles, eu posso receber uma pequena comissão sem custo adicional para você.